{"id":8740,"date":"2015-02-18T14:27:00","date_gmt":"2015-02-18T13:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/?p=8740"},"modified":"2026-04-18T09:21:23","modified_gmt":"2026-04-18T07:21:23","slug":"o-teatro-como-dispositivo-relacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/2015\/02\/18\/o-teatro-como-dispositivo-relacional\/","title":{"rendered":"O teatro como dispositivo relacional"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">na habita\u00e7\u00e3o c\u00eanica Naquele Bairro Encantado<\/h2>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Julia Guimaraes<\/h4>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">2015<\/h5>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Referencia bibliogr\u00e1fica<\/h5>\n\n\n\n<p><em>P\u00d3S:Revista do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Artes<\/em>&nbsp;da EBA\/UFMG, Vol. 5, n\u00fam. 10, Noviembre 2015, pp. 44-57.<\/p>\n\n\n\n<p>[Idioma: Portugu\u00e9s]<\/p>\n\n\n\n<p>A retomada do projeto de aproxima\u00e7\u00e3o entre arte e vida \u2013 caracter\u00edstico tanto das vanguardas hist\u00f3ricas quanto das neovanguardas do s\u00e9culo XX \u2013 encontrou novos desdobramentos a partir da chamada est\u00e9tica relacional, termo desenvolvido nos anos 1990 pelo franc\u00eas Nicolas Bourriaud para designar obras de arte centradas na \u201cinven\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es entre sujeitos\u201d (BOURRIAUD, 2009, p. 30).<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente atrelado ao contexto das artes pl\u00e1sticas, o termo reverberou no teatro desenvolvido nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o que inclusive gerou novos procedimentos, como ser\u00e1 analisado a seguir. A ideia de fazer da obra de arte um espa\u00e7o para recriar \u201cmodelos de socialidade\u201d (BOURRIAUD, 2009, 40), \u201cgerar rela\u00e7\u00f5es no mundo\u201d (p. 12) e \u201cpor em contato n\u00edveis de realidade apartados\u201d (p. 11) encontrou ecos significativos no formato do site-specific, pr\u00e1tica igualmente origin\u00e1ria do campo das artes pl\u00e1sticas, atualmente explorada tamb\u00e9m pelas artes c\u00eanicas. Da jun\u00e7\u00e3o entre site-specific e est\u00e9tica relacional, t\u00eam surgido trabalhos que valorizam n\u00e3o s\u00f3 os aspectos arquitet\u00f4nicos do espa\u00e7o para criar uma obra de arte, mas principalmente o di\u00e1logo entre artistas, p\u00fablico e habitantes de um determinado bairro da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto do teatro brasileiro, embora seja mais comum encontrar trabalhos site-specific que prop\u00f5em intera\u00e7\u00e3o com moradores apenas na etapa do processo de cria\u00e7\u00e3o \u2013 atrav\u00e9s de oficinas e viv\u00eancias laboratoriais que posteriormente s\u00e3o ressignificadas pela constru\u00e7\u00e3o dramat\u00fargica \u2013 \u00e9 poss\u00edvel identificar exce\u00e7\u00f5es, que transp\u00f5em a din\u00e2mica relacional tamb\u00e9m para a obra art\u00edstica em si. \u00c9 o caso da habita\u00e7\u00e3o c\u00eanica&nbsp;<strong><em>Naquele Bairro Encantado<\/em><\/strong>, criada em 2011 pelo grupo&nbsp;<strong>Teatro P\u00fablico<\/strong>, em Belo Horizonte (MG\/Brasil). No espet\u00e1culo, o p\u00fablico \u00e9 convidado a percorrer as ruas de um dos mais antigos e tradicionais bairros da cidade, o Lagoinha, atualmente em situa\u00e7\u00e3o de degrada\u00e7\u00e3o e abandono pelo poder p\u00fablico, que pouco contribui para a preserva\u00e7\u00e3o de sua mem\u00f3ria simb\u00f3lica e patrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p>No trabalho, o dispositivo relacional \u00e9 usado para provocar os moradores a relembrar hist\u00f3rias do bairro e narr\u00e1-las ao p\u00fablico. N\u00e3o h\u00e1 texto pr\u00e9vio: a cada apresenta\u00e7\u00e3o os atores-mascarados interagem com moradores distintos, o que faz surgir diferentes relatos e mem\u00f3rias. Para conseguir a intimidade e confian\u00e7a necess\u00e1rias ao projeto, os criadores alugaram uma casa no bairro e a habitaram durante nove meses. Com foco nessa rela\u00e7\u00e3o entre habitantes e mascarados, o objetivo deste artigo \u00e9 compreender como o dispositivo relacional foi explorado para viabilizar a presen\u00e7a e participa\u00e7\u00e3o de moradores no espet\u00e1culo&nbsp;<strong><em>Naquele Bairro Encantado<\/em><\/strong>&nbsp;e posteriormente o di\u00e1logo com o p\u00fablico. Pretende-se tamb\u00e9m analisar a experi\u00eancia art\u00edstica em di\u00e1logo com algumas cr\u00edticas j\u00e1 feitas ao campo da est\u00e9tica relacional. Nesse contexto, ser\u00e3o abordados tr\u00eas aspectos: 1 \u2013 o uso de uma perspectiva relacional no processo de cria\u00e7\u00e3o; 2 \u2013 a import\u00e2ncia de uma resid\u00eancia de longa dura\u00e7\u00e3o para intensificar a intera\u00e7\u00e3o entre criadores, moradores e p\u00fablico e ressignificar as fronteiras entre arte e vida; 3 \u2013 O entendimento sobre como o dispositivo relacional pode contribuir para resgatar mem\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para iniciar a reflex\u00e3o, \u00e9 importante descrever as etapas de cria\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo. Ap\u00f3s um levantamento documental sobre os costumes e hist\u00f3rias da regi\u00e3o, os atores do grupo alugaram uma casa no bairro Lagoinha e passaram a frequentar o local diariamente, ancorados pela premissa ficcional de que eram antigos moradores retornando, depois de muitos anos, ao bairro. No entanto, havia uma regra clara que regia a habita\u00e7\u00e3o: os atores s\u00f3 poderiam relacionarse com os moradores usando m\u00e1scaras teatrais, o que imprimia \u201cdoses de fic\u00e7\u00e3o\u201d (BEL\u00c9M, 2012) ao cotidiano do bairro. Com o intuito de resgatar o imagin\u00e1rio e a mem\u00f3ria da regi\u00e3o, a resid\u00eancia inclu\u00eda apari\u00e7\u00f5es quase di\u00e1rias dos mascarados pelas ruas do local, sempre permeada pela realiza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es extremamente cotidianas, como frequentar o barbeiro, ir \u00e0 padaria, ao banco e ao botequim, enfim, vivenciar rotinas di\u00e1rias comuns aos moradores da regi\u00e3o. Ao contr\u00e1rio do que \u00e9 comum em montagens teatrais, os atores n\u00e3o fizeram \u2018ensaios\u2019 antes de chegar ao bairro ou mesmo durante a habita\u00e7\u00e3o c\u00eanica. Tampouco seus per- sonagens estavam definidos de antem\u00e3o. Eles foram constru\u00eddos processualmente, por meio da rela\u00e7\u00e3o di\u00e1ria com os moradores.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s os nove meses de intera\u00e7\u00e3o entre moradores e mascarados, o grupo decidiu criar um formato c\u00eanico no qual um p\u00fablico externo ao bairro tamb\u00e9m pudesse observar\/ testemunhar\/interagir com a experi\u00eancia de habita\u00e7\u00e3o teatral, no intuito de aproximar- -se dos moradores da regi\u00e3o do Lagoinha e de suas hist\u00f3rias. A dramaturgia encontrada para \u201cabrigar\u201d essa conviv\u00eancia pautou-se pela cria\u00e7\u00e3o de tr\u00eas epis\u00f3dios, cada um deles marcado por uma determinada intera\u00e7\u00e3o com o bairro. No primeiro epis\u00f3dio, realizado usualmente durante as tardes de sexta-feira e batizado como \u201cEstranhos Vizinhos\u201d, a a\u00e7\u00e3o centrava-se em caminhar pelas ruas do bairro. No entanto, a proposta era que p\u00fablico chegasse ao local sem saber exatamente onde se encontravam os mascarados, que caminhavam em subgrupos por diferentes rotas da regi\u00e3o. Assim, os espectadores precisavam realizar uma deriva pelo bairro para localizar os personagens. A procura em si j\u00e1 fazia parte da obra, uma vez que a a\u00e7\u00e3o central deste epis\u00f3dio era conhecer melhor o Lagoinha. Al\u00e9m disso, o fato de estar perdido em um bairro muitas vezes desconhecido aos espectadores2 tamb\u00e9m colaborava para estabelecer uma premissa relacional, pois o p\u00fablico usualmente dependia da ajuda dos moradores para encontrar os mascarados. E quando encontrava essas figuras, passava a acompanh\u00e1-las, numa esp\u00e9cie de passeio corriqueiro pela regi\u00e3o. J\u00e1 no segundo epis\u00f3dio, realizado normalmente nas noites de s\u00e1bado e batizado como \u201cEnsaio para uma Serenata\u201d, os mascarados realizavam serenatas na porta ou janela da casa de alguns moradores. O p\u00fablico acompanhava os personagens e testemunhava a intera\u00e7\u00e3o que a atividade proporcionava, como veremos a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, o terceiro epis\u00f3dio (\u201cJogo da Velha\u201d) consistia numa visita do p\u00fablico e dos moradores \u00e0 casa alugada pelos mascarados na regi\u00e3o, onde podiam acompanhar os personagens em sua intimidade, ver fotos, partilhar comidas e desfrutar de uma roda de m\u00fasica ao final. Para investigar o trabalho \u00e0 luz da est\u00e9tica relacional de Nicolas Bourriaud, um dado interessante sobre o processo criativo diz respeito \u00e0 maneira como os personagens foram sendo criados. Como foi dito antes, o processo criativo n\u00e3o passou em nenhum momento pela sala de ensaio. N\u00e3o houve aqui a premissa de um laborat\u00f3rio, no qual os atores observam pessoas e depois as recriam atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas espec\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de&nbsp;<strong><em>Naquele Bairro Encantado<\/em><\/strong>, os personagens eram constru\u00eddos performativamente, atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de caminhar pelo bairro e interagir com as pessoas. Os \u00fanicos dois elementos pr\u00e9vios a essa a\u00e7\u00e3o eram a m\u00e1scara em si, constru\u00edda anteriormente, e a premissa ficcional de que eram antigos moradores retornando ao bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s dessas derivas, os mascarados estabeleciam um di\u00e1logo inicial com as pessoas do bairro, lan\u00e7ando informa\u00e7\u00f5es sobre o passado da regi\u00e3o no intuito de resgatar novas mem\u00f3rias e hist\u00f3rias. Ao mesmo tempo, algumas caracter\u00edsticas do ator por tr\u00e1s da m\u00e1scara tamb\u00e9m eram exploradas na cria\u00e7\u00e3o do personagem, j\u00e1 que a dimens\u00e3o real do acontecimento c\u00eanico e da sua viv\u00eancia naquela habita\u00e7\u00e3o em nenhum momento era negada.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o diretor Rog\u00e9rio Lopes3 , uma importante refer\u00eancia para constru\u00e7\u00e3o dos personagens foi a manifesta\u00e7\u00e3o popular brasileira da Folia de Reis, na qual a teatralidade constru\u00edda pela m\u00e1scara convive com a performatividade do contexto festivo e cotidiano na qual ela est\u00e1 inserida, fazendo com que o mascarado ora seja tratado como uma pessoa, ora como a m\u00e1scara que ele usa. \u201cPorque \u00e9 um ser ficcional num lugar real. Voc\u00ea adere sem virar s\u00f3 vida e sem virar s\u00f3 fic\u00e7\u00e3o, sem virar s\u00f3 personagem\u201d, observa o diretor.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa opera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel encontrar um primeiro desdobramento da est\u00e9tica relacional de Bourriaud: aqui, n\u00e3o somente a obra \u00e9 tomada como dispositivo para se \u201cgerar rela\u00e7\u00f5es no mundo\u201d, mas tamb\u00e9m o pr\u00f3prio processo criativo se pauta pela mesma premissa. Nesse contexto, pode-se afirmar que existia, no projeto, uma rela\u00e7\u00e3o de equival\u00eancia e interdepend\u00eancia entre o car\u00e1ter processual e o car\u00e1ter relacional da cria\u00e7\u00e3o. Os personagens s\u00f3 iam sendo constru\u00eddos na medida em que estreitavam o conv\u00edvio com os moradores.<\/p>\n\n\n\n<p>A equival\u00eancia entre processo criativo e din\u00e2mica relacional foi experimentado tamb\u00e9m na constru\u00e7\u00e3o dramat\u00fargica do espet\u00e1culo, pautada pela viv\u00eancia de nove meses no bairro. Ao criar uma estrutura para receber um p\u00fablico externo, o grupo opta por explorar a pr\u00f3pria din\u00e2mica de deslocamentos que foi sendo descoberta a partir da interlocu\u00e7\u00e3o com os moradores. Assim, o epis\u00f3dio 1 (descrito anteriormente) busca evidenciar a dimens\u00e3o rotineira do bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ir \u00e0 padaria e visitar o barbeiro s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que os mascarados realizaram durante os nove meses de habita\u00e7\u00e3o e que posteriormente s\u00e3o transpostas tamb\u00e9m \u00e0 viv\u00eancia do p\u00fablico. De forma semelhante, a estrutura do epis\u00f3dio 2 surge do resgate de um costume antigo do bairro, que aparecia constantemente nos relatos dos moradores mais idosos. Atualmente em desuso, as serenatas remetiam ao passado bo\u00eamio da regi\u00e3o da Lagoinha. J\u00e1 a decis\u00e3o de fazer um terceiro epis\u00f3dio na casa alugada pelo grupo surge como resposta \u00e0 curiosidade dos moradores sobre o que havia l\u00e1 dentro, curiosidade esta que diz respeito \u00e0s pr\u00f3prias confus\u00f5es entre as esferas do real e do ficcional propostas pelo projeto. Portanto, a ideia de fazer do processo de cria\u00e7\u00e3o um mecanismo relacional em si colaborou n\u00e3o apenas para criar veracidade \u00e0 premissa ficcional do espet\u00e1culo \u2013 centrada na ideia de que os mascarados seriam antigos moradores do bairro \u2013 mas, sobretudo, para n\u00e3o dissociar os espa\u00e7os da vida dos espa\u00e7os da arte. Ou como diria Bourriaud, trata-se de considerar a intera\u00e7\u00e3o e a intersubjetividade como \u201cponto de partida e de chegada, em suma, como os principais elementos a dar forma \u00e0 (\u2026) atividade\u201d (2009, p.62, grifo do autor). E na experi\u00eancia da habita\u00e7\u00e3o&nbsp;<strong><em>Naquele Bairro Encantado<\/em><\/strong>, fazer do processo criativo um momento de intera\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente considerar o car\u00e1ter relacional desde o ponto de partida do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de unir a dimens\u00e3o processual e a dimens\u00e3o relacional em uma cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica reverbera tamb\u00e9m em outra caracter\u00edstica central ao projeto do grupo&nbsp;<strong>Teatro P\u00fablico<\/strong>: a de funcionar como uma habita\u00e7\u00e3o c\u00eanica de longa dura\u00e7\u00e3o. O ponto de partida para o que seria a etapa dos ensaios \u00e9 o aluguel de uma casa no bairro. O que poderia ser entendido como \u201censaio\u201d propriamente dito transforma-se em interven- \u00e7\u00f5es art\u00edsticas di\u00e1rias, a partir das caminhadas dos mascarados pelas ruas da regi\u00e3o. Se nos primeiros momentos, h\u00e1 um estranhamento geral entre vizinhos e comerciantes, aos poucos, os atores-personagens mascarados s\u00e3o incorporados pela comunidade e passam a fazer parte dela. Isso porque a dilata\u00e7\u00e3o temporal da experi\u00eancia de intera\u00e7\u00e3o possibilita o desenvolvimento de uma rela\u00e7\u00e3o de cumplicidade com os moradores do bairro. Ao longo dos nove meses, instaura-se uma mem\u00f3ria partilhada entre os participantes daquela experi\u00eancia c\u00eanica, pautada pelo jogo entre o real e o ficcional.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, s\u00e3o estabelecidas rela\u00e7\u00f5es que valorizam n\u00e3o s\u00f3 o momento presente, mas tamb\u00e9m o car\u00e1ter de dura\u00e7\u00e3o de um conv\u00edvio, que se inicia meses antes, em um tempo passado. Dessa forma, os mascarados passam a integrar o imagin\u00e1rio afetivo da regi\u00e3o. Para entender a qualidade da rela\u00e7\u00e3o constru\u00edda a partir desse conv\u00edvio, \u00e9 interessante notar que a teatralidade explorada pelo grupo surge de uma dimens\u00e3o paradoxal. Se, por um lado, a materialidade e a expressividade das m\u00e1scaras demarcavam claramente um territ\u00f3rio ficcional para aqueles personagens, por outro, a presen\u00e7a di\u00e1ria e capilar no bairro sugeria, inversamente, uma rela\u00e7\u00e3o de vizinhan\u00e7a que n\u00e3o dizia respeito ao terreno do ficcional, e sim, ao do cotidiano. Dessa forma, a teatralidade inerente \u00e0 m\u00e1scara contrastava de maneira radical com a performatividade proporcionada pela experi\u00eancia da resid\u00eancia de longa dura\u00e7\u00e3o. Segundo relatos dos atores que participaram do projeto, houve uma mudan\u00e7a na maneira como os moradores tratavam os vizinhos mascarados, o que pode ser encarado como reflexo desse paradoxo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se, inicialmente, eles expressavam uma rela\u00e7\u00e3o de desconfian\u00e7a com essas figuras, inclusive questionando porque eles estavam ali \u201cfazendo teatro\u201d, com o passar dos meses, esse efeito inicial de \u201cn\u00e3o credulidade\u201d cedeu espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es afetivas concretas com aqueles \u201cnovos moradores\u201d, que passaram a ser tratados tamb\u00e9m como pessoas, n\u00e3o s\u00f3 como personagens. Ou seja, quando os moradores aderem ao jogo ficcional proposto pela habita\u00e7\u00e3o c\u00eanica, deixam de comportar-se apenas como p\u00fablico e tornam-se tamb\u00e9m jogadores naquela situa\u00e7\u00e3o fabular. Atrav\u00e9s da presen\u00e7a capilar e constante nas ruas do bairro, foi poss\u00edvel aos personagens fundir-se no cotidiano, ao performar a\u00e7\u00f5es banais como caminhar e cumprimentar pessoas. O \u00e1pice dessa ades\u00e3o, como observa Rog\u00e9rio Lopes, talvez tenha sido o convite recebido pelos mascarados, ap\u00f3s o per\u00edodo da habita\u00e7\u00e3o, para estarem presentes no vel\u00f3rio de um morador idoso rec\u00e9m-falecido, com quem tinham estabelecido uma forte amizade.<\/p>\n\n\n\n<p>No enterro, foi pedido que cantassem as m\u00fasicas normalmente cantadas durante as serenatas. \u00c9 interessante observar, no entanto, que a despeito da capilaridade de inser\u00e7\u00e3o dos mascarados no cotidiano do bairro, e da ambiguidade da rela\u00e7\u00e3o travada, a presen\u00e7a da m\u00e1scara impedia que houvesse, naquela experi\u00eancia, uma aboli\u00e7\u00e3o total da arte e plena fus\u00e3o com a vida. O paradoxo permanecia instaurado e, com ele, uma rela\u00e7\u00e3o fronteiri\u00e7a entre realidade e fic\u00e7\u00e3o. Essa ambiguidade, por sua vez, favorecia tanto a ado\u00e7\u00e3o de uma postura l\u00fadica por parte dos moradores (pois, ao relacionarem-se com os mascarados no limite entre o real e o ficcional, tamb\u00e9m reinventavam a si mesmos) quanto de um comportamento espont\u00e2neo e cotidiano de amizade, fruto da conviv\u00eancia estabelecida ao longo dos meses. Tal oscila\u00e7\u00e3o entre fic\u00e7\u00e3o e realidade colaborava, ainda, para que a mem\u00f3ria e a subjetividade dos interlocutores viessem facilmente \u00e0 tona nesses di\u00e1logos.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, quando a habita\u00e7\u00e3o c\u00eanica adquire o formato de \u201capresenta\u00e7\u00e3o\u201d (pela presen\u00e7a de um p\u00fablico externo), a rela\u00e7\u00e3o entre os mascarados e seus vizinhos j\u00e1 est\u00e1 solidamente constitu\u00edda. Com isso, a participa\u00e7\u00e3o de moradores no espet\u00e1culo se d\u00e1, como foi dito antes, em um ambiente de cumplicidade com os personagens. Mesmo com a presen\u00e7a do p\u00fablico, elemento \u201cextra\u201d \u00e0 rela\u00e7\u00e3o previamente estabelecida, ainda assim os moradores se sentiam \u00e0 vontade para trazer sua subjetividade \u00e0 tona, por exemplo, ao relatar suas micro-hist\u00f3rias ligadas ao bairro. Assim, \u00e9 poss\u00edvel constatar que a experi\u00eancia de longa dura\u00e7\u00e3o favorecia uma participa\u00e7\u00e3o mais espont\u00e2nea dos moradores, na qual suas singularidades mantinham-se preservadas e, com isso, a interlocu\u00e7\u00e3o com os mascarados sobre o passado do bairro ocorria de uma maneira mais performativa e menos representada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a proposta de trazer o p\u00fablico do resto da cidade para o Lagoinha \u2013 regi\u00e3o que hoje \u00e9 pouco frequentada por n\u00e3o moradores devido \u00e0 fama de sua degrada\u00e7\u00e3o social \u2013 contribui para produzir certos tipos de \u201cdesvios de percurso\u201d na cidade que possivelmente n\u00e3o ocorreriam sem a presen\u00e7a desses dispositivos art\u00edsticos. Ou seja, ao \u201cefetuar liga\u00e7\u00f5es modestas, abrir algumas passagens obstru\u00eddas, p\u00f4r em contato n\u00edveis de realidade apartados\u201d (BOURRIAUD, 2009, p. 11), o vi\u00e9s relacional presente em&nbsp;<strong><em>Naquele Bairro Encantado<\/em><\/strong>&nbsp;seria respons\u00e1vel, em \u00faltima inst\u00e2ncia, pela ef\u00eamera constru\u00e7\u00e3o de \u201cest\u00e9ticas da alteridade\u201d (MENDES, 2011), nas quais pessoas que usualmente t\u00eam pouca ou nenhuma chance de se conectarem em seus deslocamentos cotidianos estariam postas em contato, unidas pela teatralidade estabelecida com os mascarados. A partir dessas an\u00e1lises, \u00e9 poss\u00edvel observar que o car\u00e1ter de longa dura\u00e7\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o c\u00eanica contribui inclusive para dar novas respostas a algumas das cr\u00edticas 4 que posteriormente foram feitas \u00e0 chamada est\u00e9tica relacional. Na vers\u00e3o brasileira do livro de Bourriaud (2009), o pr\u00f3prio autor tenta rebater a principal delas, de que a est\u00e9tica relacional n\u00e3o passaria de uma \u201cmodeliza\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria e elitista das formas de socialidade, limitada ao meio art\u00edstico\u201d (BOURRIAUD, 2009, p. 115).<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, em muitas experi\u00eancias que tentam fazer das rela\u00e7\u00f5es entre indiv\u00edduos a pr\u00f3pria obra art\u00edstica, h\u00e1 pelo menos dois fatores que favorecem uma suposta \u201cmodeliza\u00e7\u00e3o das formas de socialidade\u201d. Em primeiro lugar, porque muitas vezes, especialmente no contexto das artes pl\u00e1sticas, tais experi\u00eancias costumam acontecer em galerias e centros de arte, o que j\u00e1 diminui consideravelmente a dimens\u00e3o de diferen\u00e7as sociais e culturais entre os participantes. Nesse sentido, a est\u00e9tica relacional pensada no contexto de um espa\u00e7o p\u00fablico, no caso analisado, um bairro de classe m\u00e9dia\/baixa, j\u00e1 redimensionaria o problema da aus\u00eancia de alteridade nas intera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a superficialidade com que rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o estabelecidas no espa\u00e7o\/tempo de um acontecimento art\u00edstico usualmente resulta apenas em uma dimens\u00e3o ilustrativa de tais rela\u00e7\u00f5es, ou simulacros de uma cultura local. No caso de&nbsp;<strong><em>Naquele Bairro Encantado<\/em><\/strong>, essa limita\u00e7\u00e3o \u00e9 igualmente subvertida pelo conv\u00edvio de longa dura\u00e7\u00e3o. O fato de partilharem um cotidiano comum ao longo dos meses faz com que os moradores se habituem ao paradoxo entre teatralidade e performatividade propiciado pelas m\u00e1scaras. Assim, quando o p\u00fablico chega, o jogo j\u00e1 est\u00e1 estabelecido e as rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o precisam ser criadas do zero, como ocorre em muitas viv\u00eancias de est\u00e9tica relacional. Os moradores j\u00e1 est\u00e3o suficientemente \u00e0 vontade para interagirem com a proposta. Nesse contexto, vale ainda destacar \u2013 o que mereceria ser desdobrado em um estudo \u00e0 parte \u2013 que a pr\u00f3pria sociabilidade tradicionalmente constru\u00edda no bairro Lagoinha tamb\u00e9m favorece a pr\u00e1tica art\u00edstico-relacional. Pois se trata de um bairro no qual existe, por parte de seus moradores e comerciantes, uma pr\u00e9-disposi\u00e7\u00e3o para a intera\u00e7\u00e3o e conviv\u00eancia. J\u00e1 em outros bairros onde o projeto foi levado \u2013 Serra e Venda Nova \u2013 essa abertura \u00e0 intera\u00e7\u00e3o surgia em uma escala muito menor, o que foi analisado pelo diretor Rog\u00e9rio Lopes como um limitador das rela\u00e7\u00f5es travadas entre moradores e mascarados, aliado ao fato de que nas outras regi\u00f5es a habita\u00e7\u00e3o teatral teve uma dura\u00e7\u00e3o mais curta. Para retomar o di\u00e1logo com as cr\u00edticas feitas \u00e0 est\u00e9tica relacional, outra importante pondera\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m aparece na literatura sobre o tema refere-se ao fato de muitas obras relacionais dilu\u00edrem a tal ponto sua dimens\u00e3o art\u00edstica que terminariam reduzidas a uma \u201cforma corriqueira de comunica\u00e7\u00e3o\u201d (FABBRINI, 2010, p. 423). De fato, esse \u00e9 o risco que se colocam cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas cuja premissa \u00e9 realizar uma fus\u00e3o com o cotidiano. Pois em muitas experi\u00eancias site-specific com moradores de um bairro, o car\u00e1ter art\u00edstico pode ser simplesmente substitu\u00eddo por uma conversa entre desconhecidos, e ainda artificializada pelo dispositivo relacional. Para Fabbrini (2010, p. 426), a quest\u00e3o que sobressai diante dessas premissas diz respeito \u00e0 capacidade das pr\u00e1ticas relacionais conseguirem dar um passo al\u00e9m de suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es, seja ao efetivamente agenciar um \u201cacontecimento\u201d no lugar de um evento cultural, seja ao lograr produzir uma imagem que \u201cdetenha algum enigma\u201d (FABBRINI, 2010, p. 426). Ou, em outras palavras, que n\u00e3o deixe de ser arte pelo fato de querer embaralhar-se \u00e0 vida, especialmente num per\u00edodo \u201cp\u00f3s-ut\u00f3pico\u201d da arte (RANCI\u00c8RE, 2005, p. 13), na qual ela facilmente pode vincular-se a camadas hegem\u00f4nicas da comunica\u00e7\u00e3o e da economia. Numa fric\u00e7\u00e3o dessa cr\u00edtica com a obra&nbsp;<strong><em>Naquele Bairro Encantado<\/em><\/strong>, \u00e9 poss\u00edvel perceber que a pr\u00f3pria m\u00e1scara funcionava como elemento que impedia a experi\u00eancia de tornar-se \u201cuma forma corriqueira de comunica\u00e7\u00e3o\u201d. Pois aqui, por mais que os mascarados penetrassem no cotidiano do bairro de maneira capilar, a exist\u00eancia da m\u00e1scara garantia que o marco art\u00edstico de teatralidade permanecesse no trabalho. E isso, por sua vez, gerava uma qualidade especial de rela\u00e7\u00e3o com os moradores, como foi visto anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessas duas cr\u00edticas, cabe ainda destacar uma terceira, concebida pelo fil\u00f3sofo Jacques Ranci\u00e8re (2005). Ao analisar a fun\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica relacional de construir mini-espa\u00e7os de \u201csociabilidade hiperb\u00f3lica\u201d, ao restaurar, por exemplo, v\u00ednculos entre \u201cinclu\u00eddos\u201d e \u201cexclu\u00eddos\u201d (RANCI\u00c8RE, 2005, p. 63), o autor aponta para os perigos de a arte abra\u00e7ar uma causa social e assistencialista, funcionando assim como uma \u201cpol\u00edtica substitutiva\u201d. Ou, em outras palavras, de criar \u201cformas modestas de uma micropol\u00edtica \u00e0s vezes muito pr\u00f3xima das pol\u00edticas de proximidade empregadas pelos (\u2026) governos\u201d (2005, p. 16).<\/p>\n\n\n\n<p>Para Ranci\u00e8re, a raiz da opera\u00e7\u00e3o vislumbrada pela est\u00e9tica relacional consistiria em eliminar a dist\u00e2ncia entre a fun\u00e7\u00e3o tradicional da arte \u2013 produzir objetos art\u00edsticos \u2013,e seus potenciais efeitos \u2013 transformar as rela\u00e7\u00f5es humanas\u2013 , apresentando-se \u201cdiretamente como propostas de rela\u00e7\u00f5es sociais\u201d (2012, p. 69). No entanto, o autor afirma que as atuais proposi\u00e7\u00f5es relacionais s\u00f3 costumam fazer sentido quando devidamente suportadas e ampliadas pelo marco art\u00edstico, gerando o risco de essa pr\u00e1tica se tornar \u201ca par\u00f3dia da efic\u00e1cia que reivindica\u201d (RANCI\u00c8RE, 2012, p. 72).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o principal problema de uma arte de intuitos cr\u00edticos como a est\u00e9tica relacional, que busca intervir fora de seus lugares, no \u201cmundo real\u201d, diz respeito ao pr\u00f3prio enfraquecimento daquilo que ela possui de mais pr\u00f3ximo \u00e0 pol\u00edtica: sua potencialidade para reconfigurar \u201ca experi\u00eancia com o mundo sens\u00edvel\u201d (RANCI\u00c8RE, 2012, p. 63), ao \u201cdesenhar uma paisagem nova do vis\u00edvel, do diz\u00edvel e do fact\u00edvel\u201d (p. 75).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, para Ranci\u00e8re (2012), a dimens\u00e3o pol\u00edtica da arte n\u00e3o residiria em sair de si mesma. E, sim, em forjar \u201ccontra o consenso outras formas de \u2018senso comum\u2019, formas de um senso comum pol\u00eamico\u201d (p. 75). Em resumo, para o autor, a arte cr\u00edtica seria aquela que desarranja o tecido consensual do real. Como pensar ent\u00e3o as cr\u00edticas propostas pelo autor no contexto da habita\u00e7\u00e3o c\u00eanica\u00a0<strong><em>Naquele Bairro Encantado<\/em><\/strong>? Numa primeira inst\u00e2ncia, seria poss\u00edvel simplesmente reiterar a import\u00e2ncia do paradoxo entre a teatralidade da m\u00e1scara e a performatividade da longa habita\u00e7\u00e3o como o principal recurso de linguagem que impede a experi\u00eancia de cair numa rela\u00e7\u00e3o simulacral, assistencialista ou meramente comunicativa com o bairro Lagoinha \u2013 em refer\u00eancia aos tr\u00eas n\u00edveis de limita\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica relacional citados anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<div data-wp-interactive=\"core\/file\" class=\"wp-block-file\"><object data-wp-bind--hidden=\"!state.hasPdfPreview\" hidden class=\"wp-block-file__embed\" data=\"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-content\/uploads\/sites\/323\/2026\/02\/Guimaraes-Julia-teatro-publico-.pdf\" type=\"application\/pdf\" style=\"width:100%;height:600px\" aria-label=\"Incrustado de Guimaraes-Julia-teatro-publico-.\"><\/object><a id=\"wp-block-file--media-70f4b212-32c5-466a-9736-1e2abe0ba2d9\" href=\"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-content\/uploads\/sites\/323\/2026\/02\/Guimaraes-Julia-teatro-publico-.pdf\">Guimaraes-Julia-teatro-publico-<\/a><a href=\"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-content\/uploads\/sites\/323\/2026\/02\/Guimaraes-Julia-teatro-publico-.pdf\" class=\"wp-block-file__button wp-element-button\" download aria-describedby=\"wp-block-file--media-70f4b212-32c5-466a-9736-1e2abe0ba2d9\">Descarga<\/a><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Documentos relacionados<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Obras<\/h4>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><a href=\"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/2011\/02\/09\/naquele-bairro-encantado\/\" data-type=\"post\" data-id=\"8119\"><em>Naquele Bairro Encantado<\/em>,<\/a> Teatro P\u00fablico, 2011<\/li>\n\n\n\n<li><em><a href=\"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/2014\/02\/10\/saudade\/\" data-type=\"post\" data-id=\"8245\">Saudade<\/a><\/em>, Teatro P\u00fablico, 2014<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>na habita\u00e7\u00e3o c\u00eanica Naquele Bairro Encantado. 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