{"id":8328,"date":"2016-02-11T13:46:00","date_gmt":"2016-02-11T12:46:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/?p=8328"},"modified":"2026-04-14T11:48:58","modified_gmt":"2026-04-14T09:48:58","slug":"entrevista-a-cristiane-zuan-esteves-opovoempe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/2016\/02\/11\/entrevista-a-cristiane-zuan-esteves-opovoempe\/","title":{"rendered":"Entrevista a Cristiane Zuan Esteves (Opovoemp\u00e9)"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Matheus Cosmo, 2016<\/h4>\n\n\n\n<p>In\u00e9dito. Entrevista realizada el 24 de mayo de 2016, en S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>MATHEUS COSMO: Como se deu a forma\u00e7\u00e3o do grupo e como nasce o primeiro projeto de voc\u00eas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>CRISTIANE ZUAN ESTEVES: OPOVOEMP\u00c9 foi uma iniciativa minha, no sentido de que fui eu quem convidou as pessoas para participarem de um projeto que se chamava Guerrilha Magn\u00e9tica. O nome do grupo surgiu abrindo um tar\u00f4 ind\u00edgena. Eu precisava de um nome, para mandar um projeto, e l\u00e1 estava escrito \u201cPovo em p\u00e9\u201d. Falei: \u00e9 isso! \u201cPovo em p\u00e9\u201d s\u00e3o as \u00e1rvores: os ind\u00edgenas chamam as \u00e1rvores de Povo em P\u00e9. A princ\u00edpio, h\u00e1 a dicotomia e o jogo entre raiz e c\u00e9u, certo? Mas, na verdade, o nome tamb\u00e9m \u00e9 sobre o povo em p\u00e9 na rua; o povo em p\u00e9, em a\u00e7\u00e3o; o povo em p\u00e9 no ponto de \u00f4nibus; o povo em p\u00e9 reivindicando\u2026 Ent\u00e3o, eu achei que era um nome que abarcava tudo isso e ele veio e eu disse: \u201c\u00c9 esse!\u201d. Eu estava voltando para o Brasil, depois de seis anos fora. Eu tinha morado no M\u00e9xico, em Nova Iorque, na Fran\u00e7a\u2026 A experi\u00eancia urbana era muito gritante para mim, no sentido de pensar em diferentes configura\u00e7\u00f5es de cidade e na maneira como as pr\u00f3prias cidades nos determinam \u2013 como determinam o modo como as pessoas se relacionam, o modo como elas lidam com o espa\u00e7o p\u00fablico\u2026 Talvez isso tudo n\u00e3o estivesse teorizado, mas era algo que estava totalmente introjetado na minha viv\u00eancia. Eu tinha todo um trabalho de Viewpoints<strong>[1]<\/strong>, que \u00e9 algo de que eu gosto muito e que me dava uma chave para olhar a realidade e pensar nas din\u00e2micas que se repetem, nas rimas po\u00e9ticas que existem no pr\u00f3prio viver cotidiano. Ent\u00e3o, depois de tudo isso, eu finalmente chego ao Brasil e venho novamente para S\u00e3o Paulo, que era uma cidade na qual eu j\u00e1 tinha morado. Chegando aqui, eu sou totalmente impactada por toda essa tens\u00e3o, fric\u00e7\u00e3o, riqueza, diversidade e, principalmente, pelas muitas coralidades. Na \u00e9poca, eu j\u00e1 tinha essa nomenclatura, mas eu s\u00f3 conseguia olhar e falar: \u201cNossa, aquelas mulheres, faxineiras, sentadas, fumando na frente do pr\u00e9dio: isso \u00e9 uma dan\u00e7a! Elas est\u00e3o dan\u00e7ando!\u201d. Ent\u00e3o, houve um momento no qual eu comecei a olhar a cidade e perceber uma dan\u00e7a do cotidiano, com a repeti\u00e7\u00e3o do \u00f4nibus que passa, das pessoas que fazem um gesto esperando o \u00f4nibus, das pessoas que saem para fazerem suas a\u00e7\u00f5es\u2026 Eu percebi que havia sempre um elemento de dan\u00e7a, de jogo, que muito me interessava.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu dava aula de Viewpoints na Casa das Caldeiras. Formei um grupo por l\u00e1. Um dia, voltando para casa, tive a ideia de fazer um projeto que se chamasse \u2013 e o nome j\u00e1 veio assim \u2013 Guerrilha Magn\u00e9tica. Eu tinha feito uma pesquisa, anteriormente, com um Coletivo do Rio de Janeiro, o Coletivo Colher, que n\u00e3o existe mais. Esse Coletivo me chamou para dar aula e eles sempre faziam coisas no espa\u00e7o p\u00fablico. Nesse curso, eu comecei a ver algo que me interessou: um tr\u00e2nsito entre o evento, no qual algo eclode, e a invisibilidade. Ou seja, uma a\u00e7\u00e3o est\u00e1 acontecendo, mas ningu\u00e9m v\u00ea \u2013 o eixo invis\u00edvel. E me veio essa ideia: como seria atuar nesse elemento po\u00e9tico da cidade, numa estrutura de guerrilha \u2013 ou seja, voc\u00ea entra a partir do invis\u00edvel, como um guerrilheiro. A\u00ed veio uma pesquisa que eu tinha feito acerca do Manual do Guerrilheiro Urbano, do Carlos Marighella. Eu transformei este manual pensando a partir do ponto de vista de um artista. O Marighella cita v\u00e1rias coisas: as armas do guerrilheiro urbano s\u00e3o sempre recolhidas do real, do concreto; um guerrilheiro precisa se misturar e n\u00e3o pode parecer diferente do entorno, daquilo que o cerca; sua a\u00e7\u00e3o precisa acontecer e logo desaparecer; ele precisa ter rotas de fuga; ele tem que viver de seu pr\u00f3prio trabalho\u2026 Para mim, parecia que ele estava falando sobre como um artista urbano teria que agir.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo essa ideia, eu chamei as pessoas que estavam estudando comigo para fazerem parte de um coletivo que eu chamei de OPOVOEMP\u00c9 e disse que eu j\u00e1 tinha um projeto chamado Guerrilha Magn\u00e9tica. Eu cheguei at\u00e9 a escrever um projeto de Fomento sem que o pr\u00f3prio grupo realmente existisse. \u00c9 claro que n\u00e3o pegamos esse projeto, mas ele serviu para que eu constru\u00edsse uma grande base te\u00f3rica. Ali\u00e1s, eu estava voltando da Fran\u00e7a e eu estava muito mais te\u00f3rica: eu olho para o que eu escrevia e penso que eu era, de fato, uma francesa escrevendo em portugu\u00eas. Eu fiz uma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do que seria ir para rua, mesmo antes de ir para a pr\u00f3pria rua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Isso era em 2004?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Em 2004 surgiu o nome e, em 2005, esse projeto. Come\u00e7amos a pesquisar esse ir para rua. Esse ir para rua trazia algo que me interessava e que vem do Richard Schechner: um potencial de jogo. Ele fala disso em algum texto. Existe uma pot\u00eancia de jogo na realidade que est\u00e1 s\u00f3 esperando para ser liberada. Ent\u00e3o, \u00e9 por isso que agora eu estou convencida a falar de uma ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, mas eu sempre falei mais em uma libera\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os. Eu entendo que a ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica nesse momento<strong>[2]<\/strong>, mas eu acredito que um artista sempre chega para liberar um espa\u00e7o \u2013 liberar num sentido meio \u201cqueda da Bastilha\u201d: liberar para que tudo aquilo que barra os fluxos, que impede a livre express\u00e3o, a cria\u00e7\u00e3o, o jogo e a rela\u00e7\u00e3o seja estourado \u2013 e isso acaba eclodindo uma outra possibilidade de n\u00f3s nos relacionarmos, conversarmos, discutirmos. O trabalho da Guerrilha Magn\u00e9tica sempre acabou atuando nessa frente. A interven\u00e7\u00e3o \u00e9 um disparador: de repente, as pessoas est\u00e3o se relacionando, conversando, jogando \u2013 at\u00e9 mesmo participando, com a gente, da a\u00e7\u00e3o. N\u00f3s ficamos dois anos fazendo s\u00f3 a Guerrilha Magn\u00e9tica \u2013 esse projeto de uma subvers\u00e3o que come\u00e7ou silenciosa, no espa\u00e7o p\u00fablico, se apropriando das l\u00f3gicas que j\u00e1 existem, em supermercados, pontos de \u00f4nibus, bibliotecas: a gente fez em v\u00e1rios lugares. Dentro dessas a\u00e7\u00f5es, n\u00f3s come\u00e7amos a incorporar o recolhimento de material do p\u00fablico. N\u00f3s lan\u00e7\u00e1vamos uma pergunta \u2013 da\u00ed o magn\u00e9tico: a gente atra\u00eda, sem impor uma intera\u00e7\u00e3o; a gente criava uma situa\u00e7\u00e3o ou algo que despertava a curiosidade e a pessoa ficava questionando o que era aquilo e o que realmente estava acontecendo, at\u00e9 que ela come\u00e7ava a vir at\u00e9 n\u00f3s e, ao inv\u00e9s de n\u00f3s respondermos qualquer pergunta que ela pudesse fazer, \u00e9ramos n\u00f3s quem lan\u00e7ava uma outra pergunta e essa pergunta lan\u00e7ada acabava virando um material que voltava para n\u00f3s, sob a forma de uma resposta, e que come\u00e7ava a ser parte do que a gente carregava, como as trouxas, as portas<strong>[3]<\/strong>\u2026 Essa era a brincadeira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Em algum lugar, isso tamb\u00e9m \u00e9 acreditar que, em um simples encontro cotidiano, entre duas pessoas quaisquer, verdadeiramente pode acontecer alguma coisa e que, a partir desse encontro, pode ser revelada a real pot\u00eancia de algo ainda a ser escavado e trabalhado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Nesse sentido, eu sou super lecoquiana<strong>[4]<\/strong>. Eu fiz todo o treinamento dos atores do Lecoq. Para mim, interessa sempre o espa\u00e7o entre \u2013 aqui, o espa\u00e7o entre voc\u00ea e eu, por exemplo. Quando eu voltei para o Brasil, essa foi uma das coisas que mais me chocou: eu olhava uma cena e percebia um vazio entre os atores, ou entre n\u00f3s, do p\u00fablico, e eles. A quest\u00e3o sempre foi como fazer com que esse espa\u00e7o entre fosse esse espa\u00e7o onde voc\u00ea puxa e empurra (uma imagem bem do Lecoq), onde as tens\u00f5es acontecem e onde algo verdadeiramente dan\u00e7a. E \u00e9 sempre esse espa\u00e7o entre que pode ser aquecido e que pode ferver.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: No final das contas, \u00e9 nesse espa\u00e7o que acontece o real fen\u00f4meno teatral.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Sim, no entre! Eu tenho experi\u00eancias minhas como atriz, l\u00e1 no passado, onde, estando em cena, eu era capaz de sentir uma esp\u00e9cie de onda vindo do p\u00fablico. A gente sentia essa onda e depois a empurrava \u2013 e, na verdade, tudo acontecia sempre entre uma coisa e outra. Por isso, sempre, meu desejo por dinamiza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um elemento do teatro de guerrilha. O Schechner fala uma coisa interessante: todos os movimentos autorit\u00e1rios, organizados, se fazem em linhas retas, e tudo que \u00e9 libert\u00e1rio gira. \u00c9 s\u00f3 voc\u00ea parar e observar: n\u00f3s estamos o tempo todo nos deslocando em linhas retas \u2013 como quebrar isso? O trabalho, ent\u00e3o, \u00e9 sempre o de pensar e revelar o conte\u00fado po\u00e9tico que j\u00e1 est\u00e1 na cidade e que n\u00f3s, \u00e0s vezes, n\u00e3o estamos dispostos a ver. H\u00e1 outras refer\u00eancias no meio disso tudo. Eu poderia falar do Lloren\u00e7 Barber, um grande criador da m\u00fasica plurifocal, que eu tenho como uma grande refer\u00eancia, por conta daquilo que ele fala sobre o espectador. Ele trabalha com um espectador parado, est\u00e1tico, que est\u00e1 sentado observando o desenrolar de uma situa\u00e7\u00e3o, e um outro espectador, chamado peripat\u00e9tico, que \u00e9 aquele que vai juntar todos os pontos. Quando voc\u00ea cria um evento que acontece em v\u00e1rios locais, a pessoa vai juntando as fichas e criando, ela mesma, um contexto. Tudo isso tamb\u00e9m determinou um pouco essas a\u00e7\u00f5es iniciais, da Guerrilha \u2013 essa possibilidade de um espectador peripat\u00e9tico versus um est\u00e1tico. Em todos os nossos trabalhos de deslocamento, o espectador est\u00e1 fazendo isso o tempo inteiro, por exemplo no Aqui Fora, no Farol\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: E mesmo nos espet\u00e1culos em sala. Na Festa, por exemplo, s\u00e3o v\u00e1rias coisas acontecendo\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Sim! \u00c9 sempre voc\u00ea quem junta os pontos. Na rua, n\u00f3s t\u00ednhamos ainda uma outra vis\u00e3o do espectador. N\u00f3s t\u00ednhamos uma divis\u00e3o em v\u00e1rios n\u00edveis. Havia aquela pessoa que estava passando por ali enquanto n\u00f3s est\u00e1vamos fazendo alguma a\u00e7\u00e3o, mas ela n\u00e3o percebia \u2013 e essa pessoa tamb\u00e9m \u00e9 um espectador, claro. Em contraposi\u00e7\u00e3o, havia uma outra pessoa que percebia que algo estava acontecendo, se perguntava sobre aquilo que estava acontecendo, deixava surgir o estranhamento, mas ela, sozinha, n\u00e3o conseguia decifrar aquilo e acabava vindo nos perguntar. Sempre que eu falo isso, eu me lembro de um epis\u00f3dio que eu acho \u00f3timo. Eu estava no supermercado, documentando uma interven\u00e7\u00e3o. Veio uma senhora conversar comigo, dizendo: \u201cVoc\u00ea viu eles ali? Eles estavam l\u00e1, segurando as batatas! Eles est\u00e3o se mexendo agora, mas eles estavam l\u00e1, segurando as batatas!!\u201d. A pessoa percebe que h\u00e1 alguma coisa acontecendo e as certezas que ela tinha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s din\u00e2micas daquele espa\u00e7o caem por terra \u2013 e isso me interessa muito. Sempre tudo \u00e9 muito previs\u00edvel. Eu ando na rua e eu sei exatamente como as coisas funcionam. Mas, se algo come\u00e7a a ser estranho e eu n\u00e3o possuo uma chave para ler aquilo, ou aquilo simplesmente n\u00e3o pode ser imediatamente decodificado, ent\u00e3o toda a realidade passa a ser um lugar de possibilidade. Tudo pode estar acontecendo! Eu posso sempre estar fazendo parte de uma outra coisa que tamb\u00e9m est\u00e1 acontecendo. Isso eu acho extremamente significativo. \u00c9 uma quest\u00e3o de olhar e se perguntar: onde \u00e9 que eu estou? Os lugares passam a ser um enigma. Ent\u00e3o, os lugares tamb\u00e9m encontram a pot\u00eancia para ser qualquer coisa. Eu falei de dois, mas h\u00e1 ainda um \u00faltimo n\u00edvel de espectador: aquele que participa. Ele entende, percebe que \u00e9 um jogo e diz: \u201ceu vou brincar\u201d \u2013 ele entra com a gente. No final das contas, eu acredito que essa seja uma base que acabou entrando, tamb\u00e9m, no trabalho de sala d\u2019OPOVOEMP\u00c9. De alguma forma, toda essa pesquisa desses dois primeiros anos, focados apenas na Guerrilha, tamb\u00e9m desemboca e vai sendo retrabalhada nos trabalhos de sala ou mesmo nos percursos sonoros e nas outras interven\u00e7\u00f5es. Ou seja, isso acabou guiando, de alguma forma, todo nosso trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: E, no caso, a busca de voc\u00eas sempre foi por esse \u00faltimo espectador?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Esse \u00e9 aquele que, com a gente, se diverte. A busca, pensando em um espet\u00e1culo de sala, \u00e9 \u00f3bvia: voc\u00ea quer que o espectador participe. Mas, na rua, \u00e9 interessante que haja tudo isso de que eu falei. Na rua h\u00e1 sempre uma total pluralidade. Ningu\u00e9m foi at\u00e9 l\u00e1 para ver algo. Nesse sentido, qualquer aceita\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 interessante. Mesmo que a pessoa n\u00e3o entenda, n\u00e3o jogue, ou perceba algo, mas n\u00e3o entre em jogo, ela j\u00e1 come\u00e7a a agregar um outro n\u00edvel de leitura sobre aquele espa\u00e7o \u2013 alguma coisa aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Voc\u00ea falou principalmente desses primeiros anos. Em algum momento, houve uma mudan\u00e7a decisiva no trabalho de voc\u00eas, dentro de toda a trajet\u00f3ria de pesquisa e experimenta\u00e7\u00e3o? Algum momento no qual todos esses paradigmas de que voc\u00ea me falou, essenciais no in\u00edcio da trajet\u00f3ria, acabaram indo para outros lugares e tomando novos rumos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Cada trabalho foi chamando o outro, de alguma forma. O trabalho seguinte \u00e9 quase uma resposta ao que foi deixado em aberto, \u00e0 pergunta que sobrou do anterior. Algo em que n\u00f3s sempre tentamos pensar \u00e9: qual a pergunta que precisa ser feita neste contexto? Sempre: qual \u00e9 a pergunta? E isso \u00e9 uma diferen\u00e7a muito grande em rela\u00e7\u00e3o a outros trabalhos. Existe uma necessidade humana, sempre gritante, de querer encontrar as respostas, mas nosso trabalho \u00e9 sempre pensado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s perguntas que achamos que precisam ser feitas. Isso \u00e9 muito dif\u00edcil, principalmente no que diz respeito \u00e0 necessidade de manter vivo esse impulso de sempre tentar formular uma pergunta. Esse \u00e9 o motor que atravessa todos os trabalhos: que perguntas s\u00e3o essas? Por exemplo, n\u00f3s fizemos os dois anos de pesquisa, fizemos um trabalho de sala (afinal, todos \u00e9ramos atores e quer\u00edamos fazer um trabalho de sala) e, depois, tamb\u00e9m acabamos fazendo uma interven\u00e7\u00e3o na qual n\u00f3s pul\u00e1vamos em um sof\u00e1, numa feira, e depois o quebr\u00e1vamos\u2026 Para o espet\u00e1culo, havia uma foto: \u201c9:50 Qualquer Sof\u00e1\u201d. Tudo isso gerou um trabalho a partir de uma rela\u00e7\u00e3o de causalidade perturbada. Um exemplo: pense em uma pessoa cai do d\u00e9cimo quarto andar e sobrevive. Algu\u00e9m deve se perguntar: o que \u00e9 isso? At\u00e9 que, no final das contas, a gente acaba percebendo que a realidade n\u00e3o \u00e9 real\u2026 Depois, acabamos fazendo este mesmo trabalho na Esta\u00e7\u00e3o da Luz. Foi quando percebemos que, apesar de a pesquisa ter nascido na rua, apesar de termos feito uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es anteriormente, apesar de termos incorporado tudo isso no nosso trabalho, quando voltamos \u00e0 rua o trabalho que havia sido concebido para a sala n\u00e3o funcionava com toda a pot\u00eancia que ele poderia ter. Nasceu, ent\u00e3o, o projeto Aqui Dentro Aqui Fora: uma tentativa de recolher uma dramaturgia, ou uma ideia, ou um conceito, e criar duas dramaturgias distintas, mas que fossem an\u00e1logas: uma que acontecesse na rua; outra, em sala. Essa foi uma resposta \u00e0quele trabalho anterior, por exemplo, que havia deixado uma pergunta para n\u00f3s. J\u00e1 o projeto A M\u00e1quina do Tempo (ou longo agora) foi mais um esfor\u00e7o de pensar em como tratar de um assunto como aquele. Cada aspecto do tempo era necess\u00e1rio que fosse trabalhado de uma maneira espec\u00edfica\u2026 Mas eu diria que existe uma ruptura nessa trajet\u00f3ria, no sentido de que no Arqueologias do presente, do n\u00facleo d\u2019OPOVOEMP\u00c9, voc\u00ea s\u00f3 conta com a Manuela e eu. Ainda \u00e9 OPOVOEMP\u00c9, porque \u00e9 a linguagem que eu, como diretora, trago do grupo. Foi um convite feito ao OPOVOEMP\u00c9, pelo Teatro da Universidade de S\u00e3o Paulo (TUSP), mas as outras meninas n\u00e3o quiseram fazer. N\u00e3o sei se por que era pouco dinheiro, se por que o tema era complicado\u2026 Por isso, esse \u00e9 um dos trabalhos que mais possui convidados. Nesse sentido, houve uma ruptura na nossa maneira de trabalhar. Foi um pouco diferente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Voc\u00ea disse que sempre um trabalho tenta se construir a partir da pergunta deixada pelo anterior.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Exato!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: E qual foi a pergunta que ficou do \u00faltimo trabalho que voc\u00eas fizeram?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Isso \u00e9 o que eu estou me perguntando o tempo inteiro\u2026 Eu acho que existe algo que ainda vem do Arqueologias, com a pergunta: e o que \u00e9 participar? Que tamb\u00e9m \u00e9: o que \u00e9 ser representado? N\u00f3s estamos vivendo isso no Brasil: uma completa crise de representatividade\u2026 Junto a isso, sempre se soma a inquieta\u00e7\u00e3o de saber quanto se conduz da participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Ainda \u00e9 preciso descobrir estrat\u00e9gias para que seja liberada, ainda mais, a a\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Essa inquieta\u00e7\u00e3o vem desde o come\u00e7o: quanto voc\u00ea conduz, quanto voc\u00ea deixa em aberto\u2026 Mas a pergunta exata, deste momento, eu ainda n\u00e3o sei. E, no final das contas, a pergunta a gente tamb\u00e9m s\u00f3 fica sabendo depois, tamb\u00e9m\u2026 Mesmo assim, neste momento, eu arriscaria que minha pergunta seria: \u201cComo responder a este momento?\u201d. E eu n\u00e3o tenho no\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Pensando no trabalho que voc\u00eas desenvolvem, voc\u00eas se considerariam parte de algum movimento espec\u00edfico do teatro, ou carregariam, para si, um esp\u00e9cie de modelo em via negativa \u2013 ou seja, um modo de produ\u00e7\u00e3o teatral que voc\u00eas n\u00e3o querem reproduzir?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Eu n\u00e3o posso falar pelas outras pessoas do grupo \u2013 ainda mais pelas atrizes, que adoram fazer personagens. Eu tamb\u00e9m gosto, como atriz, de fazer personagens; como diretora, n\u00e3o. Como atriz \u00e9 super divertido voc\u00ea fazer uma personagem, mas como diretora eu me pergunto qual \u00e9 o sentido da personagem: eu quero um ator que possa agir \u2013 algo muito mais voltado para o lado performativo da coisa. Eu tive a experi\u00eancia de colaborar com Stefan Kaegi<strong>[5]<\/strong>&nbsp;em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. H\u00e1 algo no trabalho deles que me interessa: a possibilidade de express\u00e3o do real. O documental sempre me interessou \u2013 tamb\u00e9m porque eu sou formada em Jornalismo: as entrevistas s\u00e3o sempre parte dos projetos e dos processos. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que eu me contraponho, eu posso dizer que eu n\u00e3o consigo ir a uma pe\u00e7a que me exclui, enquanto espectadora. Uma pe\u00e7a que me exclua no sentido de que, naquele espet\u00e1culo, tudo se encontra ali para ser visto, apenas. Se for assim, eu acho mais prazeroso ir ao cinema, para ver toda a reconstru\u00e7\u00e3o da realidade. Se h\u00e1 uma grande quarta parede no teatro, eu acho que prefiro ir ao cinema. Eu acho que o teatro \u00e9 sempre o lugar desse espa\u00e7o entre. Eu n\u00e3o tenho problema algum com uma est\u00e9tica realista. Eu estou falando de uma certa linguagem que, mesmo que me diga que n\u00e3o existe mais uma quarta parede, ainda cria e configura uma grande parede \u2013 a quarta, quinta parede, que est\u00e1 embaixo, em cima, que \u00e9 o teto\u2026 Ela est\u00e1 l\u00e1! Isso n\u00e3o me instiga. Eu n\u00e3o tenho muita vontade de fazer. H\u00e1 um texto que eu gostaria de montar e o que eu penso, agora, \u00e9 em como quebrar toda a estrutura da pe\u00e7a para poder, verdadeiramente, montar esse texto. Em resumo: eu acho que h\u00e1 um grande vi\u00e9s do teatro documental que me interessa e, para mim, personagens s\u00f3 funcionam se voc\u00ea souber que eu estou brincando. Eu n\u00e3o admito que um ator diga que se identifica com uma personagem: o ator est\u00e1 em jogo! Esse, para mim, \u00e9 o trabalho do ator: estar em jogo, em a\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o preciso fingir que sou outra pessoa: eu posso brincar de fingir, mas voc\u00ea sempre sabe que eu estou brincando e voc\u00ea brinca comigo, como uma crian\u00e7a, entende? Essa dimens\u00e3o precisa estar explicitada, como linguagem. Quando n\u00e3o se explicita e ainda quer me fazer fingir e acreditar que aquela pessoa, aquele ator ou aquela atriz, pode ser uma outra pessoa, eu n\u00e3o gosto. Em processos, \u00e9 comum alguns grupos nos chamarem para dialogar, mas eu acho que n\u00f3s ainda estamos em lugares diferentes de alguns grupos fomentados. De alguma forma, eu diria que n\u00f3s trocamos pouco com outros grupos, no Brasil. Sim, trocamos com pessoas na Dinamarca, com o LUME<strong>[6]<\/strong>, mas h\u00e1 pessoas e grupos que fazem tudo isso com muito mais frequ\u00eancia do que n\u00f3s. Quando n\u00f3s come\u00e7amos a falar em interven\u00e7\u00e3o urbana, ningu\u00e9m sequer sabia do que n\u00f3s est\u00e1vamos falando. Parecia algo em outra l\u00edngua. Hoje, h\u00e1 um grande n\u00famero de pessoas fazendo. Isso \u00e9 algo que foi crescendo e despertando o interesse das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: E como voc\u00eas lidam com as quest\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, financiamento e gastos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho art\u00edstico, eu sou a diretora e tenho a concep\u00e7\u00e3o e tudo mais. Contudo, na gest\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o tudo \u00e9 muito mais horizontal, em rela\u00e7\u00e3o aos cach\u00eas, quem ser\u00e3o os produtores, o espa\u00e7o onde entrar em cartaz: tudo isso \u00e9 parte de uma gest\u00e3o conjunta. Com o tempo, n\u00f3s fomos nos especializando. Por exemplo, eu sempre sou aquela que escreve os projetos; outra fica respons\u00e1vel pelas quest\u00f5es monet\u00e1rias; algu\u00e9m corre atr\u00e1s das assinaturas; algu\u00e9m sempre \u00e9 o revisor\u2026 Mas somos sempre n\u00f3s mesmas quem tenta tudo. N\u00f3s tivemos sorte de os nossos trabalhos mais longos terem dado um salto. Acho que o Arqueologias deu um salto, mas que s\u00f3 foi poss\u00edvel pelos saltos anteriores do Aqui Dentro Aqui Fora e da M\u00e1quina do Tempo. Esses \u00faltimos trabalhos de que eu falei vieram com o Fomento ao Teatro<strong>[7]<\/strong>. Durante os dois primeiros anos, n\u00f3s n\u00e3o tivemos absolutamente nada. N\u00f3s tivemos apenas o apoio da Casa das Caldeiras para poder ensaiar naquele espa\u00e7o. Depois, finalmente ganhamos um PAC \u2013 que, depois de um tempo, acabou virando o ProAC<strong>[8]<\/strong>&nbsp;\u2013, para fazer A Festa\u2026 Enfim, n\u00f3s dependemos de financiamento p\u00fablico. N\u00f3s dependemos de convites, como aconteceu com o Arqueologias: foi um convite para criar um trabalho para a I Bienal Internacional de Teatro da USP, sobre algo de que eu quisesse falar, desde que dialogasse com a curadoria do evento, que tinha como lema Realidades Incendi\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: E disso nasceu o espet\u00e1culo A Batalha da Maria Antonia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Na verdade, eu estava muito interessada em pensar naquilo que ainda restava da ditadura, muito inspirada pelo livro do Safatle<strong>[9]<\/strong>. Ent\u00e3o, eu lembrei que exatamente na rua do teatro havia acontecido a famosa batalha<strong>[10]<\/strong>. Fui finalmente at\u00e9 a FFLCH<strong>[11]<\/strong>&nbsp;e encontrei o tal do Livro Branco<strong>[12]<\/strong>. Aquilo tudo me pareceu muito interessante. A ideia inicial era fazer um percurso pelo pr\u00e9dio inteiro. Um percurso no qual fosse poss\u00edvel reconstruir as coisas ou ao menos cont\u00e1-las exatamente nos espa\u00e7os, mas o TUSP \u00e9 separado do Centro Cultural Maria Antonia, e a gente n\u00e3o p\u00f4de utilizar todos os espa\u00e7os e tivemos que nos restringir ao teatro, apenas. Conseguimos usar apenas a lavanderia, que foi a \u00fanica coisa que eles permitiram. Meu primeiro projeto era de utilizar o espa\u00e7o inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Mas, no per\u00edodo de ensaios, voc\u00eas conseguiram ter acesso aos outros espa\u00e7os?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: N\u00e3o, a gente n\u00e3o p\u00f4de ensaiar nos outros espa\u00e7os. A gente at\u00e9 tentou, mas eles n\u00e3o deixaram. Por causa disso, o espet\u00e1culo se concentrou na sala. A ideia era fazer tudo como algo itinerante, por todo o pr\u00e9dio, culminando no momento dos jogos<strong>[13]<\/strong>. As pessoas iriam pelo pr\u00e9dio, receberiam todas as informa\u00e7\u00f5es e depois voltariam para jogar. Mas n\u00e3o aconteceu\u2026 Eu acho que acabei me perdendo na sua pergunta, mas acho que \u00e9 importante dizer como as condi\u00e7\u00f5es que voc\u00ea tem determinam toda sua linguagem; como n\u00f3s, enquanto criadores, precisamos estar atentos e pensar naquilo que temos e no que podemos fazer com aquilo. O Espelho eu queria que acontecesse em uma escola de crian\u00e7as. Era minha ideia inicial. Que fosse um percurso dentro da escola, que as pessoas conversassem e comessem, mas sempre dentro da escola. N\u00f3s consultamos v\u00e1rias escolas p\u00fablicas e nenhuma quis nos aceitar. Ent\u00e3o, eu achei melhor resumir a uma mesa, com as pessoas sentadas ao redor dela \u2013 mas, ao lado da mesa, era necess\u00e1rio que houvesse um parquinho. E era o que havia na \u00c1gua Branca. Outro exemplo: como O Farol foi determinado pelo fato de que o Henrique Mariano, que fez a dire\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o, foi conosco visitar v\u00e1rios hot\u00e9is na zona da Berrini, porque eu queria que tudo sa\u00edsse de um hotel \u2013 de um heliponto, se fosse poss\u00edvel, como se n\u00f3s estiv\u00e9ssemos chegando de helic\u00f3ptero. Seria a extrema velocidade das pessoas que se deslocam em helic\u00f3pteros pela cidade versus as pessoas que utilizam o trem. N\u00f3s conseguimos negociar com o hotel Sheraton. E foi maravilhoso porque disseram que tamb\u00e9m havia um outro espa\u00e7o que, caso estivesse aberto, n\u00f3s poder\u00edamos utilizar. N\u00f3s fomos visitar o Golden Hall e, gente, eu tinha visto Dalai Lama ali. Tudo aquilo apareceu, apenas, voc\u00ea entende? Eu estava indo ensaiar e peguei um trem. No meio do caminho, eu pensei no percurso do trem e pronto: feito. Isso \u00e9 importante: pensar em quanto \u00e9 a pr\u00f3pria vida que determina o conceito. No final das contas, as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o determinam o que pode ser a concep\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo \u2013 n\u00e3o o conceito inicial, gerador do trabalho, mas a concep\u00e7\u00e3o do formato do trabalho a ser apresentado. A Festa, tamb\u00e9m: eu gostaria que fosse em um lugar de onde fosse poss\u00edvel ter uma grande vista da cidade. N\u00e3o aconteceu! Ent\u00e3o, existe a quest\u00e3o do dinheiro \u2013 at\u00e9 porque nosso trabalho n\u00e3o se sustenta com bilheteria. At\u00e9 hoje, n\u00e3o se sustentou, porque nossos trabalhos s\u00e3o sempre com um n\u00famero restrito de pessoas. Seria necess\u00e1rio executar milhares de apresenta\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel. Nosso trabalho, definitivamente, n\u00e3o se encaixa no mercado. Ele precisa de mecenas: ou \u00e9 o SESC, ou a USP, ou um edital que a gente consegue.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Voc\u00ea citou um trabalho que surgiu a partir de uma mulher que limpava uma janela. De fato, a rua comunica muito ao trabalho de voc\u00eas. Todas as situa\u00e7\u00f5es mais cotidianas j\u00e1 s\u00e3o extremamente comunicativas. Voc\u00ea acredita que o desejo de voc\u00eas de estarem nas ruas \u00e9 a express\u00e3o de um desejo de entrar em contato direto com aquilo que, desde sempre, era a mat\u00e9ria para o pr\u00f3prio trabalho de voc\u00eas? Seria sempre esse o movimento: n\u00e3o adianta falar sobre as coisas, \u00e9 preciso sempre ir ao encontro delas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Sim, mas sempre com uma transposi\u00e7\u00e3o. Sempre h\u00e1 uma recria\u00e7\u00e3o em cima da situa\u00e7\u00e3o. A materialidade das coisas me interessa muito. Em um dos passos da Guerrilha Magn\u00e9tica, n\u00f3s t\u00ednhamos um roteiro: \u201ccomo acontecem as interven\u00e7\u00f5es\u201d. O roteiro inicial era: observa\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 bem lecoquiano, tamb\u00e9m. Antes de fazer uma a\u00e7\u00e3o em algum lugar, n\u00f3s primeiro ficamos observando tudo, e depois come\u00e7amos a experimentar. \u00c9 o concreto que nos alimenta, para que n\u00f3s possamos dialogar. H\u00e1 sempre um desejo de dialogar com o que acontece. Por isso, tamb\u00e9m, nos percursos sonoros, a utiliza\u00e7\u00e3o de alguns textos te\u00f3ricos e de alguma fic\u00e7\u00e3o, mas basicamente e essencialmente entrevistas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Desde o in\u00edcio houve o trabalho com entrevistas. Sempre, em algum lugar, as entrevistas aparecem.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Acho que sim. Mesmo quando n\u00e3o temos uma entrevista, utilizamos algo de car\u00e1ter documental. Na Alemanha, entrevistamos v\u00e1rias pessoas e fizemos um percurso sonoro em alem\u00e3o e em ingl\u00eas, com v\u00e1rias entrevistas. E eu achei uma entrevista incr\u00edvel da Hannah Arendt e coloquei no trabalho! O que \u00e9 mais interessante do que aquela voz da Hannah Arendt falando, em alem\u00e3o? H\u00e1 sempre o desejo de utilizar o m\u00e1ximo de materialidade. \u00c9 muito melhor ouvir a Hannah do que eu tentando dizer alguma coisa de modo semelhante. Acho que existe algo tamb\u00e9m de um gosto meu: eu escolhi estudar Jornalismo porque eu gostava de fazer entrevistas. Mas, depois, eu n\u00e3o conseguia escrever tudo em um texto pequeno, para uma revista. Tinha que ser teatro! \u00c9 dar voz \u00e0quele que est\u00e1 ali; dar voz a um lugar. \u00c9 acreditar na contribui\u00e7\u00e3o do outro. \u00c0s vezes, voc\u00ea vai para rua achando que vai fazer alguma coisa e o outro faz com voc\u00ea \u2013 e \u00e9 extremamente potente o que vem das pessoas. O Espelho \u00e9 isso\u2026 Na rua, vem um rapaz conversar com voc\u00ea e voc\u00ea diz: \u201cEu vou para casa: \u00e9 essa pessoa quem tinha que estar fazendo isso, n\u00e3o eu!\u201d. Em suma, \u00e9 sempre a vontade de ter trocas, de proporcionar uma troca \u2013 e isso \u00e9 muito rico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Um pequeno jogo, Cris: suponhamos que haja tr\u00eas vertentes dominantes no teatro. A primeira delas implica uma rela\u00e7\u00e3o entre diferentes linguagens e o trabalho se cria a partir desse hibridismo fundamental; a segunda insiste na necessidade de produzir uma nova forma de conhecimento; e a terceira seria uma forma de ativismo social \u2013 um artivismo, como ficou conhecido. Voc\u00ea se identificaria com alguma dessas tr\u00eas linguagens? Mais com uma delas e menos com outra?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Eu acho que, de alguma forma, as tr\u00eas dialogam com todo o trabalho. Desde o come\u00e7o h\u00e1 algo de micropol\u00edtica no nosso trabalho, come\u00e7ando com uma proposta para que a pessoa se aproprie do espa\u00e7o p\u00fablico. O hibridismo n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o para n\u00f3s: ele est\u00e1 colocado. As linguagens h\u00edbridas acontecem. A gente lida com essas linguagens o tempo inteiro. Mais h\u00edbrido que o Arqueologias\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Como voc\u00ea definiria o Arqueologias, por sinal?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Eu sempre falei que era um sal\u00e3o de jogos, uma exposi\u00e7\u00e3o\u2026 \u00c9 um espa\u00e7o imersivo\u2026 Eu n\u00e3o sei dizer! Para mim, a coisa mais dif\u00edcil \u00e9 definir. O projeto come\u00e7ou em dezembro de 2012, quando eu recebi o convite, mas, no meio disso, quando n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos, inclusive, escolhido a mat\u00e9ria sobre a qual quer\u00edamos falar, quando a pesquisa j\u00e1 estava em andamento, houve junho<strong>[14]<\/strong>. Naquela \u00e9poca, a gente j\u00e1 percebia que as pessoas n\u00e3o estavam conseguindo dialogar. Ent\u00e3o, n\u00f3s precis\u00e1vamos colocar as pessoas para dialogar. As pessoas precisavam trocar. Meu marido tem uma filha do casamento anterior e n\u00f3s sempre jog\u00e1vamos aqueles jogos de tabuleiro. Na minha adolesc\u00eancia, eu n\u00e3o tinha visto tudo isso. Eu me apaixonei pelos jogos de tabuleiro! Da\u00ed os jogos nos quais \u00e9 preciso encontrar defini\u00e7\u00f5es, como o jogo do dicion\u00e1rio, em que voc\u00ea precisa criar defini\u00e7\u00f5es para palavras imposs\u00edveis. Nasce disso o desejo de criar os jogos. Para mim, as pessoas precisavam de um mecanismo por meio do qual elas discutissem sem saber que estavam discutindo, sem virar um discurso monocrom\u00e1tico. A pergunta foi: quais dispositivos podemos criar? Nasceram os jogos. S\u00e3o dispositivos que revelam algo. H\u00e1 o jogo dos presidentes, que eu acho \u00f3timo: quantos presidentes foram derrubados? Agora seria maravilhoso jog\u00e1-lo! Quantos foram eleitos? Os mandatos terminaram? Ter\u00edamos que acrescentar um, agora: o presidente interino\u2026 Para mim, isso era importante: como construir um espa\u00e7o para que as pessoas dialogassem? Os jogos foram a maneira encontrada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Principalmente para voc\u00ea, como uma das criadoras, fazendo parte de todo esse processo, que come\u00e7a em dezembro de 2012 e que s\u00f3 vai estrear em outubro de 2013, quais foram, exatamente no meio de toda essa trajet\u00f3ria, os impactos de junho de 2013?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Foi exatamente no meio! O processo era para ter tido um pouco mais de meses, mas apareceu uma viagem para Dinamarca. O processo ficou mais curto. Ele foi bastante curto, por sinal. N\u00f3s fizemos workshops com algumas pessoas antes, pesquisas com pessoas que tinham vivido a pr\u00f3pria Batalha da Maria Antonia, que fazem parte do trabalho por meio dos depoimentos ouvidos. Mas junho, especificamente, me deixou enlouquecida! Eu fui naquela primeira grande manifesta\u00e7\u00e3o que saiu de Pinheiros. Para mim, mas tamb\u00e9m acho que para todos, aquilo foi muito impactante. Eu estava l\u00e1 contra o Alckmin<strong>[15]<\/strong>&nbsp;e, quando olho para o lado, est\u00e1 tudo cheio de \u201cFora, Dilma!\u201d. Na hora, eu me perguntei: \u201cComo assim, \u2018Fora, Dilma\u2019? Eu n\u00e3o vim para um \u2018Fora, Dilma\u2019, mas para um \u2018Fora, Alckmin\u2019. Eu vim no meu direito de me manifestar: por que a pol\u00edcia militar vai me bater, se eu estou apenas me manifestando?\u201d. Eu fui por uma raz\u00e3o muito espec\u00edfica, vi aquilo e achei extremamente esquisito. Nos dias seguintes, eu decidi n\u00e3o ir \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es e fiquei pela Internet. Comecei a descobrir os sites de direita \u2013 os sites que, naquela \u00e9poca, j\u00e1 falavam de impeachment, j\u00e1 pediam interven\u00e7\u00e3o militar\u2026 Descobri que, at\u00e9 hoje, os militares da Am\u00e9rica Latina conversam, entre si, em uma rede de espionagem e se encontram determinadas vezes por ano. Algo surreal!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Como o Juc\u00e1 declarou, no \u00e1udio vazado, que \u201cestou conversando com os generais, comandantes militares. Est\u00e1 tudo tranquilo, os caras dizem que v\u00e3o garantir. Est\u00e3o monitorando o MST, n\u00e3o sei o qu\u00ea, para n\u00e3o perturbar\u201d[16]\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Sim!! Naquela \u00e9poca, eu j\u00e1 comecei a dizer que estava havendo um golpe. Eu fiquei em p\u00e2nico e eu tinha certeza de que eram os militares, mas eu me perguntava se eu estava ficando louca, por conta de toda a pesquisa que eu estava fazendo. Porque, quando voc\u00ea descobre que o golpe, no Brasil, foi civil militar e que havia institutos bancando todos os filmes produzidos, que estavam nas f\u00e1bricas e cinemas, e que bancaram intelectuais, isso significa que houve uma constru\u00e7\u00e3o da mentalidade do golpe, antes de o golpe verdadeiramente acontecer. Ent\u00e3o, eu olhava para a realidade e percebia que eles estavam fazendo a mesma coisa. Quando vieram as elei\u00e7\u00f5es, eu me acalmei um pouco, mas depois todos os discursos voltaram \u2013 e agora est\u00e1 ainda mais claro que tudo \u00e9 realmente uma repeti\u00e7\u00e3o, mas uma repeti\u00e7\u00e3o diferente, eu diria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Como uma farsa, dessa vez.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: \u00c9 isso. E eu percebia como tudo antes \u00e9 criado, primeiro, no imagin\u00e1rio e s\u00f3 depois no concreto. E eu me lembro do ex-ministro da Justi\u00e7a falando que, at\u00e9 2013, Dilma tinha at\u00e9 70% de aprova\u00e7\u00e3o; depois de tudo isso, ela caiu para 10, 15, 20%. Uma reivindica\u00e7\u00e3o leg\u00edtima e pontual, contra o aumento das passagens, foi completamente transformada e, de repente, voc\u00ea redescobre toda a direita que tinha ficado um pouco adormecida e que est\u00e1 na sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, no seu c\u00edrculo de amigos\u2026 Naquela \u00e9poca, toda essa situa\u00e7\u00e3o deu uma urg\u00eancia ainda maior ao processo. Percebemos que havia algo que estava fora do lugar. E, antes mesmo da pe\u00e7a, houve uma grande repress\u00e3o na pr\u00f3pria Rua Maria Antonia. Uma amiga brinca e conta que viveu a pr\u00f3pria batalha da Maria Antonia, em outro tempo. A pol\u00edcia n\u00e3o deixou a manifesta\u00e7\u00e3o avan\u00e7ar e lan\u00e7ou bombas\u2026 Tamb\u00e9m havia toda a mobiliza\u00e7\u00e3o na USP, com uma greve dos estudantes, que nos levou a ver a concretude das coisas. Eu me lembro de ter visto as capas do Jornal \u00daltima Hora e 80% das capas falavam sobre estudantes, professores, universidade\u2026 Durante 1968, foi um grande assunto. Tudo foi estabelecendo um grande di\u00e1logo entre os tempos, em um sentido arqueol\u00f3gico, de fato. Voc\u00ea descobre todo o projeto de educa\u00e7\u00e3o que foi aprovado em 1969 e v\u00ea, agora, todo o desmonte da universidade<strong>[17]<\/strong>&nbsp;e por a\u00ed vai.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Voc\u00ea considera um perigo sair dos teatros, ir para as ruas e acabar convertendo o espa\u00e7o p\u00fablico em um outro tipo de teatro, transformando todas as pessoas que ali est\u00e3o como participantes em um outro tipo de p\u00fablico, no final das contas? Ir para as ruas e acabar transformando a pr\u00f3pria rua naquele teatro de onde voc\u00ea queria ter sa\u00eddo desde o come\u00e7o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Eu acho que todo teatro documental \u2013 e que \u00e9 a cr\u00edtica que sempre se faz aos trabalhos do Rimini Protokoll \u2013 deve se preocupar com a maneira como se utiliza daquelas pessoas, como lidar com a dimens\u00e3o do real que est\u00e1 ali, com todas aquelas pessoas. Como dosar todas as coisas, sem acabar se apropriando demais de algo. Sempre quando n\u00f3s fazemos nossos percursos, eu gosto de falar que \u00e9 um document\u00e1rio e que voc\u00ea, como espectador, vai preencher todo o trajeto com as imagens, na medida em que voc\u00ea se encontra ali e pode ter qualquer ponto de vista. Muitas vezes, quando as interven\u00e7\u00f5es terminam, as pessoas me dizem coisas que, para elas, foram surpreendentes e que eu sequer havia reparado. Eu me lembro da minha m\u00e3e dizendo que tinha visto uma bandeira do Brasil rasgada, no topo do edif\u00edcio, e eu nunca tinha sequer prestado aten\u00e7\u00e3o naquilo. H\u00e1 algo que \u00e9 da constru\u00e7\u00e3o do espectador, de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, e \u00e9 sempre ele quem constr\u00f3i sua experi\u00eancia. Exatamente por isso eu n\u00e3o gosto de trabalhar com atores e personagens na rua, por exemplo. Voc\u00ea quem deve escolher se olha para a senhora ou para o cachorro. Ou seja, a constru\u00e7\u00e3o final do espet\u00e1culo \u00e9 sempre feita pelo espectador. Com isso, eu acho que eu acabo minimizando o risco de transformar a rua em um teatro, mas, claro, h\u00e1 sempre uma media\u00e7\u00e3o e um desejo de fazer com que as pessoas experienciem um estado po\u00e9tico da pr\u00f3pria cidade. Ao mesmo tempo, sempre existe uma esfera de reflex\u00e3o, liberdade, que simplesmente acontece e que tamb\u00e9m pode ser criticada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Pensando em um poss\u00edvel curso de artes c\u00eanicas, se voc\u00ea fosse abrir uma escola que fosse inteiramente sua, quais seriam as tr\u00eas disciplinas mais fundamentais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: \u00c9 engra\u00e7ado, porque eu estive na SP Escola de Teatro<strong>[18]<\/strong>, bem no come\u00e7o, para ajudar na implementa\u00e7\u00e3o do curso de atua\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 dif\u00edcil \u2013 muito dif\u00edcil! Para mim, o fundamental para qualquer artista seria trabalhar a escuta \u2013 algo que eu trabalho intensamente, principalmente a partir dos Viewpoints, com a camada das respostas<strong>[19]<\/strong>. Eu me lembro, sempre, de uma frase: a maior qualidade de um ator \u00e9 que ele saiba escutar. Eu acho que uma disciplina que se voltasse \u00e0 observa\u00e7\u00e3o e escuta seria fundamental. Eu tamb\u00e9m trabalhei muito com observa\u00e7\u00e3o, no treinamento do Lecoq. Voc\u00ea vai para rua observar as pessoas e para o zool\u00f3gico observar os animais: a partir disso, voc\u00ea cria algo. Para mim, escuta e observa\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma das disciplinas fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: No final das contas, a escuta \u00e9 sempre mais importante que a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Qual a\u00e7\u00e3o voc\u00ea \u00e9 capaz de fazer se n\u00e3o houver uma escuta? \u00c9 uma a\u00e7\u00e3o surda e cega, desconectada do mundo e do meio onde voc\u00ea se encontra. Primeiro, a escuta. \u00c9 preciso sempre partir do pressuposto de que voc\u00ea nunca tem uma a\u00e7\u00e3o genial que precisa ser feita. Voc\u00ea tem sempre uma rea\u00e7\u00e3o! Uma rea\u00e7\u00e3o a tudo que voc\u00ea recebe. A segunda disciplina seria voltada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o mesmo. O Lecoq tinha algo muito bom em rela\u00e7\u00e3o a isso. Por exemplo: nesta semana, trabalhamos com a m\u00e1scara neutra. Nesta mesma semana, voc\u00ea tinha que criar cenas, com as outras pessoas, e apresent\u00e1-las para toda a escola. \u00c9 um desafio de estar em constante cria\u00e7\u00e3o. A disciplina poderia se chamar: desafios de cria\u00e7\u00e3o \u2013 o tempo inteiro. A \u00faltima disciplina seria voltada ao pensamento, propriamente dito. N\u00e3o que haja esse pensamento e essa escuta nos outros. Mas, aqui, eu penso em algo que fosse capaz de estimular um pensamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade. Voc\u00ea observa e escuta, mas tamb\u00e9m precisa elaborar todo esse material. Ou seja: quais as ferramentas que voc\u00ea utiliza no trato com essa mesma realidade? Eu n\u00e3o falei de um treinamento t\u00e9cnico porque isso depende sempre do que voc\u00ea quer fazer. Aqui, eu estou pensando em filosofia, em algo que caminhe perto desse lugar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Agora, uma pergunta que cont\u00e9m um pequeno jogo dentro dela: se a vida parece ser sempre atropelada pelo tempo presente e o teatro \u00e9, por excel\u00eancia, um acontecimento que se d\u00e1 no tempo presente, quais as mat\u00e9rias que atropelam o teatro neste momento \u2013 para o bem e para o mal? O que est\u00e1 a\u00ed pedindo para ser dito?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Dif\u00edcil isso\u2026 Eu me lembro daquela imagem do Walter Benjamin de que o corpo humano n\u00e3o \u00e9 feito para a velocidade. A gente utilizava essa imagem em O Farol: um min\u00fasculo corpo humano em meio a toda velocidade. A palavra \u2018atropelamento\u2019 me lembra dos carros\u2026 Acho que h\u00e1 elementos que est\u00e3o entrando na nossa vida e que, de alguma forma, precisam ir ao teatro. Nossa rela\u00e7\u00e3o com a tecnologia, por exemplo. N\u00f3s s\u00f3 estamos aqui, fazendo essa entrevista, porque combinamos tudo ontem, pela Internet. Isso acaba determinando todo nosso pensamento e nossa pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com as coisas. Eu n\u00e3o digo que o teatro deve reproduzir tudo isso, mas ele deve pensar a partir disso: quem somos, a partir dessas novas rela\u00e7\u00f5es e desses logaritmos que nos determinam? Essa \u00e9 uma grande pergunta. \u00c9 preciso pensar em como usamos a tecnologia e em como ela nos usa. Isso, de alguma forma, tamb\u00e9m penetra o teatro \u2013 com o perigo de se transformar em algo parecido com boys playing with toys. Eu estive na Alemanha em 2014 e fui a um festival. N\u00f3s \u00e9ramos bolsistas e havia um eg\u00edpcio, um iraniano, um grego\u2026 Ainda mais depois de 2013, tudo em que eu conseguia pensar era: o que est\u00e1 acontecendo nas ruas? As ruas e as redes, sem saber quanto \u00e9 manipulado ou n\u00e3o. Isso o teatro n\u00e3o pode ignorar. O teatro n\u00e3o pode ignorar a realidade presente, as configura\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas. A pol\u00edtica \u00e9 sempre determinante. De alguma forma, \u00e9 necess\u00e1rio que esteja presente a cr\u00edtica ao capitalismo. As corpora\u00e7\u00f5es determinam quem somos, o que comemos. Elas est\u00e3o mandando demais \u2013 e cada vez mais! Isso precisa atravessar toda a linguagem teatral.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: A quest\u00e3o \u00e9 sempre como fazer essa cr\u00edtica. E \u00e9 sempre ela que determina a forma do pr\u00f3prio espet\u00e1culo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Sim! Voc\u00ea pode simplesmente apontar o dedo, ou pensar em qual tipo de experi\u00eancia pode verdadeiramente fazer essa cr\u00edtica. Eu acho tudo isso muito dif\u00edcil, porque estamos imersos nessa grande experi\u00eancia que determina aquilo de que gostamos, aquilo que queremos, nossos valores\u2026 Estamos imersos nesses signos todos. A quest\u00e3o \u00e9 sempre sobre como fazer com que seja poss\u00edvel retirar os v\u00e9us, para que seja poss\u00edvel enxergar alguma coisa. Tudo isso precisa estar no espet\u00e1culo. \u00c9 algo que passa pela cr\u00edtica \u00e0 sociedade, pela cr\u00edtica \u00e0 sua pr\u00f3pria estrutura. H\u00e1 uma representatividade limitada e as pessoas querem tomar tudo isso de volta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: \u00c9 interessante porque o Fredric Jameson diz que este \u00e9 o grande paradoxo de toda arte que se diz pol\u00edtica. Na medida em que ela tamb\u00e9m est\u00e1 imersa dentro dessa mesma sociedade, sua cr\u00edtica ao \u00e2mbito social \u00e9 tamb\u00e9m uma cr\u00edtica a ela mesma. Este parece ser sempre um grande jogo: de que modo \u00e9 poss\u00edvel lan\u00e7ar uma cr\u00edtica fazendo, primeiro, uma cr\u00edtica a n\u00f3s mesmos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: E \u00e9 a grande dificuldade. N\u00f3s falamos muito n\u2019OPOVOEMP\u00c9: n\u00f3s somos classe m\u00e9dia, branca, no Brasil. Todas n\u00f3s estudamos em escolas privadas \u2013 sem exce\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somos de escolas p\u00fablicas. Eu estudei em uma universidade p\u00fablica, mas s\u00f3 porque eu havia sido preparada em uma escola particular. Eu sempre acho v\u00e1lido nos colocarmos em uma posi\u00e7\u00e3o de estrangeiro, mas eu tamb\u00e9m acho que \u00e9 preciso cuidado para n\u00e3o olhar para o outro com um olhar colonizador. Eu acho que n\u00f3s vivemos em um momento muito confuso e \u00e9 preciso pensar em como criticar seu pr\u00f3prio ponto de vista em rela\u00e7\u00e3o a alguma coisa, j\u00e1 que ele \u00e9 criado a partir das v\u00e1rias experi\u00eancias repetidas, das informa\u00e7\u00f5es sobre as quais voc\u00ea teve algum acesso, das escolhas que voc\u00ea faz \u2013 e quanto as escolhas feitas j\u00e1 n\u00e3o vieram de outros lugares.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: E essa \u00e9 uma das quest\u00f5es fundamentais para o entendimento da viol\u00eancia. H\u00e1 quem diga que, diante de um ambiente no qual todo seu poder de escolha se reduz apenas \u00e0 sele\u00e7\u00e3o daquilo que j\u00e1 foi anteriormente escolhido para voc\u00ea, a \u00fanica resposta poss\u00edvel \u00e9 uma viol\u00eancia desmesurada, que tamb\u00e9m \u00e9 uma autodestrui\u00e7\u00e3o e uma busca por reconhecimento.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Sim, e sendo bem honesta com voc\u00ea: eu n\u00e3o tenho no\u00e7\u00e3o do que acontece, de fato, na periferia brasileira, tomando como base aquelas narrativas de pessoas que chegaram em casa e se depararam com seus vizinhos e familiares mortos, por exemplo<strong>[20]<\/strong>. No final das contas, n\u00f3s n\u00e3o temos ideia do que \u00e9 tudo isso \u2013 eu, pelo menos, n\u00e3o tenho! E h\u00e1 movimentos que nascem da periferia e que s\u00e3o motores: quando a periferia realmente entender sua for\u00e7a e descer do morro, ser\u00e1 o come\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o. Algo poder\u00e1 acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: \u00c9 engra\u00e7ado porque, em rela\u00e7\u00e3o ao espet\u00e1culo A Batalha da Maria Antonia, uma das coisas de que eu mais gosto \u00e9 o final da pe\u00e7a, com aquele grande refr\u00e3o da m\u00fasica do S\u00e9rgio Sampaio: \u201cEu quero \u00e9 botar meu bloco na rua\u201d. Depois de reviver toda a experi\u00eancia de 1968, para mim existe uma pot\u00eancia muito forte nesse retorno para o mundo, nessa reintegra\u00e7\u00e3o daquele bloco de pessoas \u00e0 rua.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: E essa m\u00fasica veio depois! Eu tinha um fim de que eu n\u00e3o gostava e, quando eu encontrei essa m\u00fasica, que eu ouvia na inf\u00e2ncia, eu coloquei. Porque \u00e9 isso: \u00e9 isso que n\u00f3s temos que fazer! \u201cOcupar e resistir\u201d<strong>[21]<\/strong>!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: E quais foram as maiores descobertas em rela\u00e7\u00e3o a esse trabalho e o que voltou para voc\u00eas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas que o assistiram? At\u00e9 porque, depois de terem apresentado no TUSP de S\u00e3o Paulo, que fica exatamente na Rua Maria Antonia, voc\u00eas fizeram algumas apresenta\u00e7\u00f5es em outros lugares, at\u00e9 pelo pr\u00f3prio circuito do TUSP.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Sim, e isso foi fundamental! No circuito de apresenta\u00e7\u00f5es do TUSP, fomos apenas o Pedro e eu, do elenco original. Al\u00e9m de n\u00f3s dois, foram o Beto, meu marido, e a Andrea Tedesco. Era outro elenco! E, como n\u00f3s ensaiamos muito pouco esse trabalho, ele existe como estrutura, apenas \u2013 n\u00e3o foram os atores criadores que levantaram tudo, na \u00edntegra. Por isso, houve tamb\u00e9m uma outra liberdade. Nessa viagem, o p\u00fablico come\u00e7ou a se colocar e dizer suas mem\u00f3rias. Naquela cena em que as pessoas precisam escolher entre jogar uma mem\u00f3ria no lixo, guardar para si ou compartilhar com todos os outros, as pessoas come\u00e7aram a compartilhar algumas que elas liam e tamb\u00e9m come\u00e7avam a falar sobre suas pr\u00f3prias experi\u00eancias, com alguns dizendo que haviam apanhado da pol\u00edcia e tudo mais. O teatro se tornou um f\u00f3rum de discuss\u00e3o. Houve uma cidade (Rio Preto, eu acho) na qual o espet\u00e1culo acabou e as pessoas foram at\u00e9 as caixas e come\u00e7aram a ler tudo, umas para as outras. N\u00f3s fomos embora e elas continuaram por l\u00e1. Foi uma descoberta! O p\u00fablico se apropriou totalmente do espet\u00e1culo: esse, com certeza, \u00e9 um retorno muito interessante. N\u00f3s fomos muito surpreendidos por todos os depoimentos e pela maneira como as pessoas entraram no espet\u00e1culo. Algo aconteceu naquele espa\u00e7o! Uma pequena curiosidade sobre o retorno do p\u00fablico: era interessante que, quando n\u00f3s est\u00e1vamos montando o cen\u00e1rio, algumas pessoas iam at\u00e9 o TUSP e elas, que haviam vivenciado tudo aquilo, diziam que n\u00f3s est\u00e1vamos reconstruindo o Centro Acad\u00eamico! Agora, o retorno central, de todas as pessoas, era sempre a constata\u00e7\u00e3o de que \u00e9 incr\u00edvel como n\u00f3s n\u00e3o sabemos. N\u00f3s n\u00e3o temos no\u00e7\u00e3o de quanto a ditadura perpassou todos os n\u00edveis do imagin\u00e1rio, da cultura e da nossa sociedade, sobretudo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Por isso, \u00e9 urgente retornar \u00e0 ditadura militar? Quais nossas maiores d\u00edvidas em rela\u00e7\u00e3o a esse per\u00edodo, as feridas que ainda permanecem sem cicatriza\u00e7\u00e3o, e o que ainda hoje perdura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Ontem mesmo eu estava me lembrando de como come\u00e7ou minha inquieta\u00e7\u00e3o frente \u00e0 ditadura militar. Eu me lembrei de que, na minha \u00e9poca de faculdade, eu fui entrevistar uma professora da FFLCH e ela me disse que estava pesquisando como a transi\u00e7\u00e3o da ditadura para a democracia, no Brasil, havia sido guiada pelos militares, sem qualquer resqu\u00edcio de puni\u00e7\u00e3o. Ela comparava a situa\u00e7\u00e3o com a Argentina e o com o Chile e dizia que n\u00f3s \u00e9ramos os \u00fanicos a n\u00e3o punir os militares. Eu acredito que muito do que aconteceu com a Dilma vem disso. Houve a Comiss\u00e3o da Verdade, mas ela n\u00e3o conseguiu fazer tudo que ela poderia e deveria ter feito. H\u00e1 um cap\u00edtulo n\u00e3o contado nessa hist\u00f3ria. Os caras tinham que ser presos, punidos, escrachados \u2013 antes que eles morram. Essa ainda \u00e9 uma hist\u00f3ria que n\u00f3s n\u00e3o contamos direito. E corremos o risco de que as pessoas da minha gera\u00e7\u00e3o acabem acreditando no que acontecia: n\u00f3s \u00edamos para a escola e isso era chamado de revolu\u00e7\u00e3o. Eu estudei isso: havia uma grande foto do M\u00e9dici no meu livro e o cap\u00edtulo se chamava \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o de 64\u201d. Durante anos eu estudei isso. Hoje, essas pessoas que aprenderam isso s\u00e3o nossos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Votando \u201cSim\u201d, pela fam\u00edlia[22]\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: Pois \u00e9! \u00c9 preciso que se fa\u00e7a essa an\u00e1lise, que n\u00e3o foi feita. E \u00e9 preciso que se pense tudo isso para os dias atuais, tamb\u00e9m: qual \u00e9 a hist\u00f3ria que ser\u00e1 contada? O que estar\u00e1 escrito nos livros did\u00e1ticos daqui a dois anos? Qual narrativa vai sobreviver? Por isso, \u00e9 urgente refazer a narrativa e perceber quais estruturas ainda sobrevivem \u2013 como, e sobretudo, a pol\u00edcia militar. Essas estruturas precisam ser implodidas. Eu digo que este trabalho precisa ser feito, mas ele est\u00e1 sendo feito. H\u00e1 uma s\u00e9rie de filmes, principalmente document\u00e1rios, que s\u00e3o incr\u00edveis e contam verdadeiramente essa hist\u00f3ria. A quest\u00e3o \u00e9 saber como um cidad\u00e3o m\u00e9dio e como as crian\u00e7as se debru\u00e7am sobre essa hist\u00f3ria. N\u00f3s estamos em um instante de perigo. Essas pessoas que est\u00e3o no poder agora certamente v\u00e3o querer alterar todos os livros did\u00e1ticos. Os col\u00e9gios militares ainda dizem revolu\u00e7\u00e3o\u2026 Por mim, era mais simples: para crimes de Estado, n\u00e3o existe anistia. N\u00e3o existe anistia \u00e0quele que matou o Amarildo<strong>[23]<\/strong>, nem aos torturadores de 1964. Ou seja, seria preciso alterar o Judici\u00e1rio, as leis, o Congresso, tudo!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M: Al\u00e9m de extinguir o p\u00edfio argumento de que seria preciso observar e averiguar os dois lados da coisa, como se os resistentes \u00e0 ditadura pudessem ter chegado perto de possuir o mesmo poder de for\u00e7a do Estado; como se a viol\u00eancia tivesse sido proporcional.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>C: N\u00e3o \u00e9: nunca \u00e9! O Estado tem o monop\u00f3lio da for\u00e7a: acabou! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conceber esse argumento. Havia uma atitude de guerrilha, de resist\u00eancia, contra o Estado. N\u00e3o era proporcional. E, se voc\u00ea l\u00ea aqueles livros antigos, voc\u00ea encontra relatos horrorosos de que matavam pessoas e depois contratavam testemunhas para afirmar que os mortos estavam armados. Desse jeito, querendo ou n\u00e3o, as narrativas iam se construindo. Tudo uma constru\u00e7\u00e3o! Acho que a gente acaba vivendo grandes repeti\u00e7\u00f5es porque a hist\u00f3ria n\u00e3o foi contada\u2026<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Notas<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>[1]&nbsp;<\/strong>Viewpoints (puntos de vista esc\u00e9nicos) es un entrenamiento basado en improvisaciones de movimiento esc\u00e9nico. Las t\u00e9cnicas preparan el actor a desarrollar su escucha a la escena y su habilidad para responder en el momento a lo que est\u00e1 pasando aqu\u00ed y ahora, en el escenario.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>[2]<\/strong>&nbsp;No in\u00edcio da manh\u00e3 de 12 de maio de 2016, o Senado aprovou, com 55 votos favor\u00e1veis e apenas 22 contr\u00e1rios, o pedido de abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, eleita em 2014, com cerca de 54 milh\u00f5es de votos. Desde ent\u00e3o, mesmo sem a real comprova\u00e7\u00e3o de um verdadeiro crime de responsabilidade que legitimasse, oficialmente, a causa para a abertura do processo, facilmente percebido como um golpe de Estado, amplamente apoiado pelos setores jur\u00eddico e midi\u00e1tico, o ent\u00e3o vice-presidente, Michel Temer, assumiu a presid\u00eancia nacional, implantando, j\u00e1 nos primeiros dias de seu governo, uma pol\u00edtica extremamente conservadora, com s\u00e9rios ataques aos setores menos favorecidos da sociedade brasileira e aos programas e conquistas sociais, bem como a todo o \u00e2mbito efetivamente p\u00fablico, num descarado impulso neoliberal de privatiza\u00e7\u00e3o e terceiriza\u00e7\u00e3o, e com a exclus\u00e3o de v\u00e1rios minist\u00e9rios, dentre eles o Minist\u00e9rio das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e o Minist\u00e9rio da Cultura. Contra a extin\u00e7\u00e3o do MinC, fundado em 1985, artistas organizaram variadas interven\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es, culminando na ocupa\u00e7\u00e3o das chamadas Funda\u00e7\u00f5es Nacionais das Artes (Funarte), em quase todos os Estados do pa\u00eds. Mesmo com a decis\u00e3o, anunciada no dia 21 de maio, de recriar o Minist\u00e9rio da Cultura, as ocupa\u00e7\u00f5es permanecem em vig\u00eancia (a entrevista foi editada em 01\/06\/2016). O motivo pelo qual as ocupa\u00e7\u00f5es permanecem \u00e9 a premissa de que n\u00e3o se negocia com um ileg\u00edtimo governo golpista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>[3]<\/strong>&nbsp;De fato, tanto as trouxas quanto as portas constituem objetos fundamentais para o trabalho desenvolvido pelas int\u00e9rpretes, especialmente no que diz respeito \u00e0s interven\u00e7\u00f5es \u201cO que voc\u00ea n\u00e3o deixa para tr\u00e1s?\u201d, de 2006, e \u201cFora de chave\/Out of key(s)\u201d, de 2008, respectivamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>[4]&nbsp;<\/strong>Jacques Lecoq (1921 \u2013 1999) fue un actor, mimo y un maestro de actuaci\u00f3n franc\u00e9s. Es un referente del teatro del gesto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>[5]<\/strong>&nbsp;Stefan Kaegi, junto a Helgard Haug e Daniel Wetzel, comp\u00f5e o conhecido coletivo Rimini Protokoll.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>[6]<\/strong>&nbsp;O LUME \u2013 N\u00facleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais foi criado em 1985 pelo ator, diretor e pesquisador Lu\u00eds Ot\u00e1vio Burnier, juntamente com os atores Carlos Roberto Simioni e Ricardo Puccetti e a musicista Denise Garcia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>[7]<\/strong>&nbsp;Aprovada em dezembro de 2001 e promulgada em janeiro do ano seguinte, a Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de S\u00e3o Paulo foi uma conquista dos grupos locais, especialmente do Movimento Arte Contra a Barb\u00e1rie. Com o apoio desta lei, grupos que possuem uma pesquisa continuada, tida como invi\u00e1vel nas atuais condi\u00e7\u00f5es de mercado, apresentam seus projetos em busca de apoio municipal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>[8]<\/strong>&nbsp;ProAC: Programa de A\u00e7\u00e3o Cultural do Governo do Estado de S\u00e3o Paulo. O mesmo significado designava a sigla PAC, que acabou ganhando um novo sentido a partir do segundo mandato de Luiz In\u00e1cio Lula de Silva, principalmente a partir de 2007, passando a representar o Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>[9]<\/strong>&nbsp;A refer\u00eancia feita pela entrevistada diz respeito ao livro a seguir: SAFATLE, Vladimir; TELES, Edson (orgs.). O que resta da ditadura: a exce\u00e7\u00e3o brasileira. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>[10]<\/strong>&nbsp;A chamada Batalha da Maria Antonia ocorreu nos dias 02 e 03 de outubro de 1968, acarretando a morte de um estudante secundarista chamado Jos\u00e9 Carlos Guimar\u00e3es, de 20 anos de idade, e a completa destrui\u00e7\u00e3o do antigo pr\u00e9dio da ent\u00e3o Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da USP. Tudo come\u00e7ou quando os estudantes da Universidade de S\u00e3o Paulo tentaram arrecadar fundos, a fim de tornar vi\u00e1vel sua participa\u00e7\u00e3o no congresso organizado pela UNE, a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes, cuja sede havia sido invadida e destru\u00edda por um inc\u00eandio, logo no in\u00edcio do per\u00edodo ditatorial: o golpe se deu na madrugada do dia 31 de mar\u00e7o de 1964; na noite do dia seguinte, 01 de abril, houve o inc\u00eandio. Contra os estudantes da USP, os alunos da Mackenzie come\u00e7aram a tacar ovos \u2013 depois, bombas, at\u00e9 que, finalmente, come\u00e7aram os tiros. Em cima do telhado da Mackenzie, encontrava-se o CCC (Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas). Em um document\u00e1rio organizado por Renato Tapaj\u00f3s, depoimentos revelam que \u00e9 falso afirmar que tudo se resumiu a um embate entre os estudantes das duas universidades. Havia um grupo de paramilitares na Mackenzie: o prop\u00f3sito era, definitivamente, destruir e ocupar o pr\u00e9dio de Filosofia da Universidade de S\u00e3o Paulo, um dos grandes centros de pensamento e resist\u00eancia da \u00e9poca. O objetivo era produzir uma crise. N\u00e3o por menos, pouco tempo depois, foi anunciado o famoso AI-5, conhecido pelo seu alt\u00edssimo teor de repress\u00e3o, produtor de uma forte viol\u00eancia, com suas pris\u00f5es, torturas e mortes, aos setores mais combativos e resistentes. 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