{"id":2825,"date":"2015-09-26T20:52:00","date_gmt":"2015-09-26T18:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/?p=2825"},"modified":"2026-03-15T13:09:18","modified_gmt":"2026-03-15T12:09:18","slug":"entrevista-a-joao-galante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/2015\/09\/26\/entrevista-a-joao-galante\/","title":{"rendered":"Entrevista a Jo\u00e3o Galante"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Julia Guimar\u00e3es. 2015<\/h4>\n\n\n\n<p>In\u00e9dito. Entrevista realizada con participaci\u00f3n de Rosa Casado. [26 de junio de 2015, en la ciudad de Vitoria-Gasteiz]<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Voc\u00ea vem de uma trajet\u00f3ria de teatro f\u00edsico na qual a ideia de cria\u00e7\u00e3o estava relacionada a entrar em uma sala de ensaio e descobrir coisas com seu pr\u00f3prio corpo. O que muda quando a t\u00e9cnica e a sala de ensaio j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais os elementos centrais da cria\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: O que acontece atualmente, no caso espec\u00edfico meu e da Ana, \u00e9 que nos viramos mais para o exterior, mais para a sociedade, para al\u00e9m de n\u00f3s e do nosso centro como artistas. E isso nos colocou tamb\u00e9m numa ideia de presente, de hoje, que acho que n\u00e3o t\u00ednhamos com o outro tipo de cria\u00e7\u00e3o, que vinha de outra l\u00f3gica de cria\u00e7\u00e3o, mais baseada na improvisa\u00e7\u00e3o. Isso nos coloca:nos tamb\u00e9m num s\u00edtio com menos possibilidades de abstra\u00e7\u00e3o e com mais ideias concretas, o que tamb\u00e9m nos levou a colocar mais texto nas pe\u00e7as, porque antes era mais f\u00edsico, mas tamb\u00e9m mais abstrato.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, tanto eu quanto a Ana fomos pessoas tardias na \u00e1rea de espet\u00e1culo, chegamos tarde ao mundo do espet\u00e1culo, na realidade v\u00ednhamos das artes pl\u00e1sticas, eu fazia pintura, Ana fez escultura. Isso criou em n\u00f3s um modo diferente de pensar o objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>E embora tenhamos sido pessoas com percurso at\u00e9 forte, eu na dan\u00e7a, Ana no teatro, como cheguei tarde, entrei diretamente na dan\u00e7a contempor\u00e2nea, e uma dan\u00e7a contempor\u00e2nea que j\u00e1 permitia outro tipo de estar e de movimento. E sempre fui um bailarino que recusei a t\u00e9cnica como fim. Fui atra\u00eddo a come\u00e7ar a dan\u00e7ar por pessoas que faziam espet\u00e1culos com n\u00e3o profissionais. Foi meu primeiro impacto, minha primeira vontade, que me abriu a possibilidade \u201ceu tamb\u00e9m posso fazer isto\u201d. E muito da dan\u00e7a contempor\u00e2nea traz essa ideia de t\u00e9cnica como uma outra t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: E como voc\u00ea enxerga a ideia de t\u00e9cnica na performance <a href=\"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/2011\/09\/26\/atlas\/\" data-type=\"post\" data-id=\"2816\">Atlas<\/a>?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: N\u00f3s, no fundo, criamos uma esp\u00e9cie de t\u00e9cnica, que \u00e9 ser o mais normal poss\u00edvel. &nbsp;E como temos pe\u00e7as em que o p\u00fablico \u00e9 quem atua, usamos tamb\u00e9m alguns atores infiltrados; e nossa fun\u00e7\u00e3o ali \u00e9 sermos o mais normais poss\u00edvel, ser o menos ator poss\u00edvel, ter uma rela\u00e7\u00e3o com a atua\u00e7\u00e3o quase invis\u00edvel, e isso tamb\u00e9m \u00e9 uma t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Criam um efeito de n\u00e3o atua\u00e7\u00e3o. Seria isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Sim, uma esp\u00e9cie de \u2018n\u00e3o overacting\u2019. Porque \u00e0s vezes p\u00fablico participante nas nossas pe\u00e7as pode ter esse overacting.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Mas no espet\u00e1culo \u201cAtlas\u201d em algum momento a gente observa esse overacting, por exemplo, quando atores contam hist\u00f3rias. Nesse sentido, qual \u00e9 o limite da liberdade que os participantes aqui t\u00eam em cena, seja na atua\u00e7\u00e3o, seja no conte\u00fado?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Em termos de atua\u00e7\u00e3o, acho que eles t\u00eam quase toda a liberdade. Nunca nos apareceu ningu\u00e9m que n\u00f3s diss\u00e9ssemos \u2018ai n\u00e3o, est\u00e1 demais\u2019. Mas porque nessa pe\u00e7a espec\u00edfica lidamos com o que as pessoas s\u00e3o e o que as pessoas entendem que \u00e9 o teatro, ou o que s\u00e3o elas no palco. E a\u00ed acho que n\u00e3o podemos criar limites. (&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p>Julia : Mas e no caso dos discursos apresentarem afirma\u00e7\u00f5es que poderiam ser entendidas como preconceituosas, ou algo parecido, como voc\u00eas lidam, j\u00e1 aconteceu alguma vez?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: N\u00e3o, at\u00e9 porque as pessoas que costumam aparecer nas convocat\u00f3rias n\u00e3o costumam ter esse tipo de posicionamento. E apesar de a pe\u00e7a vir de uma vontade pol\u00edtica e social nossa, ela tamb\u00e9m \u00e9 um espelho do que a sociedade \u00e9 em si, desse grupo de pessoas diferentes que est\u00e3o juntas por um motivo espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>E essa pe\u00e7a, por exemplo, come\u00e7ou com uma vontade de dizer \u2018n\u00e3o\u2019, n\u00e3o \u00e0s coisas em geral, \u00e0 forma como sociedade \u00e9 constru\u00edda. E foi curioso que, \u00e0 medida que o projeto foi avan\u00e7ando, ela se tonou uma esp\u00e9cie de grande sim; tornou:se uma pe\u00e7a muito positiva, quando em termos eram conceituais era uma pe\u00e7a negativa, pelo inc\u00f4modo. E por mais que as pessoas estejam a proclamar coisas que n\u00e3o estejam satisfeitas, est\u00e3o juntas a participar de algo e isso \u00e9 muito positivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Sim, de fato, \u00e9 curioso voc\u00ea falar que \u00e9 uma pe\u00e7a positiva quando o dispositivo dela traz em si a ideia de inc\u00f4modo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Eu possivelmente n\u00e3o tenho dist\u00e2ncia suficiente da pe\u00e7a, para falar dela somente como pe\u00e7a, pois ela para mim \u00e9 a pe\u00e7a e tamb\u00e9m o workshop. E esse encontro gera frutos. Pelo que temos estado a ver, as pessoas, depois da apresenta\u00e7\u00e3o, continuam a se encontrar, formam novos grupos, coletivos de teatro, fazem novos amigos. H\u00e1, por exemplo, pessoas que continuam a se encontrar no Natal, os 100 juntos, aconteceu isso em Mil\u00e3o. Fica um rastro, algo reverbera e para mim a pe\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 isso, por isso falo do lado positivo. Mas de qualquer forma penso que dizer n\u00e3o e juntarmo:nos para isso j\u00e1 \u00e9 positivo. A tentativa de mudan\u00e7a de alguma coisa \u00e9 uma forma de energia positiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Quando abrem a convocat\u00f3ria para cada edi\u00e7\u00e3o de Atlas, voc\u00eas pedem \u00e0 produ\u00e7\u00e3o local para buscar pessoas:chave (por exemplo, sei que voc\u00ea gosta de encerrar a performance com uma crian\u00e7a) ou se trata de um convite aberto?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: O convite inicial \u00e9 totalmente aberto. Depois, vai depender da rela\u00e7\u00e3o com quem nos convida, mas geralmente pedimos sempre pessoas espec\u00edficas. Isso porque quando se faz um convite aberto, s\u00e3o as pessoas ligadas \u00e0 arte geralmente as primeiras a responder. Mas tentamos sempre que procurem padres, prostitutas, pessoas que vivem na rua, pol\u00edticos, pessoas ligadas ao dinheiro, como banqueiros, banc\u00e1rios. \u00c0s vezes essas pessoas aparecem naturalmente, ent\u00e3o vemos mais ou menos quem est\u00e1 e quem falta. N\u00e3o temos exatamente uma lista das pessoas que queremos. Mas quando chega a lista de quem se inscreveu n\u00f3s percebemos logo o que falta e a\u00ed tentamos pedir a quem nos convida (a produ\u00e7\u00e3o local) para procurar.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Existe a ideia de trazer pessoas que de alguma forma s\u00e3o estigmatizadas por essas representa\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas, pela sociedade?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: N\u00e3o tanto isso, \u00e9 mais uma ideia de tentar abranger v\u00e1rios tipos de pessoas, o m\u00e1ximo poss\u00edvel. N\u00e3o deixar que a pe\u00e7a se centre somente em um \u00fanico tipo de pessoa que j\u00e1 gosta da arte ou do teatro. E penso que no caso brasileiro, por exemplo, de isso ter acontecido : termos conseguido chegar, no caso do Rio de Janeiro, a pessoas que n\u00e3o pertenciam \u00e0quele universo : fez com que houvesse gente a ver o espet\u00e1culo que nem sequer tinha entrado antes no teatro.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Por ser formada muitas vezes por parentes e amigos das 100 pessoas que est\u00e3o ali a apresentar, a plateia vira tamb\u00e9m um reflexo do palco, \u00e9 isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Sim, porque aparece muita gente do p\u00fablico que se relaciona com as pessoas que est\u00e3o no palco. E entra a\u00ed tamb\u00e9m a quest\u00e3o de tentar fazer com que pessoas que n\u00e3o se relacionam de forma alguma com a arte contempor\u00e2nea vejam que n\u00e3o se trata de nenhum bicho de sete cabe\u00e7as, nesse sentido a pe\u00e7a \u00e9 muito did\u00e1tica tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: E voc\u00ea acredita que o dispositivo verbal, por referir:se a um inc\u00f4modo, tende a favorecer uma participa\u00e7\u00e3o mais cr\u00edtica?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Eu penso que a frase em si leva para um determinado pensamento sobre o que se pode dizer. Mas j\u00e1 ocorreu v\u00e1rias vezes de haver pessoas que n\u00e3o querem fazer s\u00f3 a cr\u00edtica, querem falar de outra forma. Por exemplo, algu\u00e9m feliz pode incomodar tamb\u00e9m. E h\u00e1 pessoas que trazem isso. Mas no caso do dispositivo : e isso \u00e9 uma forma nossa de trabalho : em todas as pe\u00e7as tentamos criar um dispositivo o mais simples poss\u00edvel. E a\u00ed talvez tenha a ver com alguma arte contempor\u00e2nea das artes pl\u00e1sticas, algum minimalismo, n\u00e3o sei. Porque trabalhamos muito com linhas tamb\u00e9m, em termos formais. Ent\u00e3o, em termos de desenho e em termos de dispositivo, trabalhamos sempre da forma mais simples poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso talvez tenha come\u00e7ado de uma forma mais consciente da nossa parte depois das nossas visitas ao Jap\u00e3o e da nossa rela\u00e7\u00e3o com o pa\u00eds. Fomos em jardins zen de rochas, jardins com pedras , onde nada se passa. E estando num local onde nada se passa, tudo o que se passa de m\u00ednimo ganha uma dimens\u00e3o muito grande. Ent\u00e3o tentamos tamb\u00e9m fazer que os nossos dispositivos sejam o mais simples e minimalistas poss\u00edvel para tudo o que seja detalhe que aconte\u00e7a seja grande, para n\u00e3o haver a necessidade de fazer grandes movimentos. E&nbsp; apesar do Atlas ser muito grande, ele \u00e9 grande pelas pessoas, n\u00e3o pelo dispositivo, que \u00e9 muito simples: as pessoas caminham, v\u00e3o pra frente, \u00e9 uma onda que cresce, e \u00e9 bastante simples, \u00e9 repetitivo, e penso que esse nosso trabalho dentro dos dispositivos simples, repetitivos, faz com que se olhe para o detalhe.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: A ideia da repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouco essa tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Sim. Para que se preste aten\u00e7\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a e ao detalhe, porque a repeti\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 igual, isso nos interessa muito. No jardins zen de pedra, o que se passa l\u00e1 \u00e9 uma s\u00e9rie de pessoas a olhar algo que n\u00e3o acontece, mas depois h\u00e1 uma \u00e1rvore por tr\u00e1s do jardim que deixa cair uma folha, ou um lagarto que passa por entre as pedras e tudo isso ganha uma dimens\u00e3o gigante. E no fundo \u00e9 isso que favorece a contempla\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Acho que temos muito uma ideia da participa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m muito forte a ideia da contempla\u00e7\u00e3o, de criar paisagens, a\u00ed a liga\u00e7\u00e3o maior com as artes pl\u00e1sticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Lembro de voc\u00ea dizer que na primeira apresenta\u00e7\u00e3o em Lisboa a estrutura era mais r\u00edgida e que nas seguintes os participantes come\u00e7aram a demandar outros tipos de participa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o queria que voc\u00ea falasse um pouco sobre como que, processualmente, essa dramaturgia ou esses outros dispositivos foram sendo encontrados.<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Na primeira vez que apresentamos, em Lisboa, n\u00e3o permit\u00edamos que os participantes fizessem mais do que aquilo que ped\u00edamos para eles fazerem. J\u00e1 na segunda, que foi na Finl\u00e2ndia, percebemos que, a partir do momento em que mudas de cidade, tudo muda. Para n\u00f3s, o Atlas era para ser s\u00f3 uma vez. Nunca pens\u00e1vamos que ir\u00edamos repetir. E quando nos convidaram para fazer em Hels\u00ednquia : e fomos : percebemos que o Atlas n\u00e3o era s\u00f3 aquilo que pens\u00e1vamos que era em Lisboa. Percebemos que toda a nossa forma de pensar a pe\u00e7a tinha que mudar. E ao pensarmos assim, abrimos uma porta para outras coisas. Que poder\u00edamos abrir a determinados detalhes de cada grupo de participantes e isso enriquecia a pe\u00e7a. E foi a partir da\u00ed que come\u00e7amos a deixar que acontecessem outras coisas para al\u00e9m da nossa estrutura.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa: Y el cambio en la idea inicial cuando la hiciste en Lisboa y luego cuando empieza a cambiar, crees que la distancia cultural y la comunicaci\u00f3n entre vosotros y las personas de&nbsp; Hels\u00ednquia ayud\u00f3 a esa apertura?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Talvez, o fato de n\u00e3o percebermos aquela l\u00edngua talvez crie uma dist\u00e2ncia daquilo como objeto visual e talvez tenhas uma vontade de dizer algo mais ou come\u00e7as a perceber aquilo mais como um objeto visual, \u00e9 poss\u00edvel, sim.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Me parece claro que existe no espet\u00e1culo a for\u00e7a do coletivo, a ideia de coro e as for\u00e7as do indiv\u00edduo. E a\u00ed pergunto, ao longo dessas apresenta\u00e7\u00f5es nas diversas cidades, como que voc\u00ea percebe hoje, esses dois lugares, o que eles constroem na dramaturgia, como os dispositivos ajudam a valorizar o coletivo, valorizar o indiv\u00edduo e o que te interessa nesse equil\u00edbrio?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Isso n\u00e3o ocorre s\u00f3 no Atlas, mas em v\u00e1rias outras de nossas pe\u00e7as. Tentamos criar dispositivos em que, de alguma forma, a gente n\u00e3o precise falar quais s\u00e3o as regras, isso em rela\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico, para que o p\u00fablico possa facilmente participar : no caso de Atlas, ele participa um pouco menos. Mas quando as regras n\u00e3o s\u00e3o ditas e, no entanto, s\u00e3o claras, simples, isto apela a uma participa\u00e7\u00e3o.&nbsp; E, por outro lado, eu acho que ao serem t\u00e3o simples esses dispositivos, o p\u00fablico acaba por se perguntar: o que diria se eu estivesse ali? Porque os participantes s\u00e3o pessoas iguais ao p\u00fablico, n\u00e3o s\u00e3o profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu acho que isto \u00e9 a forma simples que n\u00f3s temos de por o p\u00fablico a pensar e questionar, ativamente, naquele momento e n\u00e3o s\u00f3 pensar mais quando chegarem em casa. E a\u00ed a repeti\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ajuda a poderes afastastes um bocadinho do que est\u00e1 ali a acontecer e a poderes pensar, tu, naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa: A m\u00ed un momento que me interesa mucho es el momento en que el coro repite pero que no le repite bien. Porque lo que se pone de manifiesto ah\u00ed es un nosotros en el intento, en el intento de ser&nbsp; nosotros, que es como esa tensi\u00f3n entre la individualidad y el estar juntos, el apoyarnos, el tratar de hacer, pero que no sale de todo. Y ese momento me parece muy potente a nivel de espectador tambi\u00e9n, porque est\u00e1s consiente que es un intento de hacer algo juntos. Y le da valor ese intento, no tanto al resultado del intento. Y es ese proceso, ese tratar de estar juntos que se pone valor, y para m\u00ed ese es como el momento m\u00e1s potente\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: S\u00ed, es verdad. Y incluso cuando est\u00e1 solo y intenta hacer algo y no consigue, es muy fuerte. Que es que se pasa con los otros tambi\u00e9n, si te ayudan, no te ayudan, eso hace parte tambi\u00e9n.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa: S\u00ed, el dispositivo es muy sencillo, pero permite el error. Porque hay otros dispositivos, otros trabajos de que hace poco ve\u00eda, el trabajo de una gente de Barcelona, que el dispositivo era sencillo, era un trabajo muy diferente, pero que en los cuales el error no cobraba valor, pero aqu\u00ed el error cobra un valor que es muy positivo, que es muy interesante.<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Sim, mesmo em termos art\u00edsticos ou est\u00e9ticos, n\u00e3o interessa muito esta rela\u00e7\u00e3o com o erro do ator e com o muito bem feito, o que \u00e9 isso, onde \u00e9 que uma coisa termina&#8230; E damos muito valor a essa coisas que n\u00e3o s\u00e3o perfeitas, que fazem parte da realidade, que oferecem muito essa ideia de realidade. \u00c9 uma fic\u00e7\u00e3o sempre, uma realidade ficcionada&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Si, incluso hay un pedido a los participantes, uno de los pocos pedidos de vosotros, que es para hablaren cosas que no son ficciones, como no inventaren profesiones, hay tambi\u00e9n un intento ah\u00ed de estar de una manera m\u00e1s cruda?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Sim, mesmo no momento da apresenta\u00e7\u00e3o em que contam hist\u00f3rias, tentamos que as pessoas digam coisas reais. Mas j\u00e1 nos aconteceu, acho que foi em Bilbao, que una chica de las hist\u00f3rias creo uma historia magnifica, h\u00e1 sido as\u00ed em el espet\u00e1culo, y despu\u00e9s del espet\u00e1culo nos han dicho que era todo mentira. Yo cre\u00ed en su historia, toda la gente crey\u00f3 en su historia, y solo despu\u00e9s descobrimos. &nbsp;Pero es una realidad que aconteceu a nosotros, porque nunca se sabe tambi\u00e9n si las personas estao aqu\u00ed, estao a falar la verdad. A veces las personas v\u00e3o tanto para a ficcao que tu percebes logo. Agora se \u00e9 algu\u00e9m que entra numa fic\u00e7\u00e3o que se torna realidade, acreditamos tamb\u00e9m. Porque tamb\u00e9m estamos aqui e \u00e9 um processo, h\u00e1 um processo de aceita\u00e7\u00e3o, de acreditar nessas pessoas, como elas acreditam em n\u00f3s. Como uma esp\u00e9cie de confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: E isso que a Rosa falava desse erro que aparece, dessa tentativa de falar juntos, mais como tentativa, h\u00e1 a ideia de contrapor a uma certa especializa\u00e7\u00e3o no que se refere \u00e0 t\u00e9cnica teatral?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Acho que o que nos atrai tamb\u00e9m nessa forma de trabalhar \u00e9 o acaso, das coisas acontecerem sem estarem previstas, de fazermos dispositivos que permitam isso. De forma que tudo o que acontece ali dentro fa\u00e7a parte da obra e n\u00e3o seja visto como um erro. Ou se for visto como erro, \u00e9 um erro primitivo, um erro que tem valor, (para que) tudo que possa acontecer fa\u00e7a parte dessa realidade que criamos. Mas acho que tamb\u00e9m n\u00e3o nos preocupamos muito com t\u00e9cnica, com essa quest\u00e3o. Claro que depois, visto de fora, \u00e9 um teatro que se contrap\u00f5e a outro tipo de teatro. Mas nos preocupamos mais com o que vamos dizer, em como vamos colocar o p\u00fablico, o que \u00e9 que o p\u00fablico vai fazer. Preocupamos muito em como o p\u00fablico se vai relacionar com a obra.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: E pensando em p\u00fablico como um p\u00fablico mais geral, como a pr\u00f3pria cidade onde est\u00e3o, e dessa ideia de Atlas funcionar como um espelho da cidade, queria saber um pouco de voc\u00eas o que o espet\u00e1culo revela das cidades onde se apresenta. Se ele funciona mesmo como espelho ou se as quest\u00f5es que chegam no espet\u00e1culo s\u00e3o representativas daquela cidade&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: N\u00e3o sei at\u00e9 que ponto ele representa. O que n\u00e3o sei \u00e9 se as pessoas, o publico local, realmente veem a pe\u00e7a como uma representa\u00e7\u00e3o da sua cidade. Agora para n\u00f3s \u00e9 muito claro as diferen\u00e7as das cidades, dos pa\u00edses. Agora como mapa real penso que n\u00e3o \u00e9 essa tanto nossa preocupa\u00e7\u00e3o apesar de ser um pouco essa ideia.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Minha duvida \u00e9 mais se as experi\u00eancias revelam coisas da cidade&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Sim, sinto que s\u00e3o pessoas distantes a viver em s\u00edtios diferentes, com culturas diferentes, formas de estar diferentes&#8230; S\u00f3 os hor\u00e1rios, por exemplo, essa quest\u00e3o t\u00e3o simples : a que horas fazemos os ensaios? : s\u00e3o completamente diferentes de pa\u00eds para pa\u00eds : menos de cidade para cidade. &nbsp;Na Fran\u00e7a, h\u00e1 um determinado tipo de hor\u00e1rio, na Espanha \u00e9 outro, nos pa\u00edses n\u00f3rdicos, outro&#8230; e s\u00f3 isso j\u00e1 revela uma forma de organiza\u00e7\u00e3o diferente. Na Fran\u00e7a, por exemplo, h\u00e1 sempre um dia de pausa, obrigat\u00f3rio para eles. Na It\u00e1lia, essa coisa de, no meio do ensaio,&nbsp; as pessoas sa\u00edrem a fumar ou para comprarem uma cerveja. Em Hals\u00ednquia, depois do ensaio as senhoras mais velhas abrem suas carteiras e tiram suas garrafinhas de \u00e1lcool. Esses tipos de comportamentos s\u00e3o mesmo muito diferentes de s\u00edtio para s\u00edtio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas depois h\u00e1 um lado em que todos somos iguais. Todos n\u00f3s precisamos dos outros, as raz\u00f5es para as pessoas se inscreverem, para estarem aqui, s\u00e3o muito parecidas: ou s\u00e3o pessoas que querem fazer teatro, ou s\u00e3o pessoas que querem uma revolu\u00e7\u00e3o, pessoas que querem mudar coisas, ou pessoas que est\u00e3o sozinhas e querem encontrar outras, e isso \u00e9 muito parecido em quase todos os s\u00edtios: as raz\u00f5es que levam esse grupo de pessoas a estar conosco.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa: A m\u00ed, con el t\u00edtulo y ser 100 personas, me lleva a la porcentaje, a lo representativo. Levo isso na cabe\u00e7a, \u00e9 meu marco inicial. Pois chego e miro: \u2018qu\u00e9 passa\u2019? E, de repente, la tensi\u00f3n que se genera entre la expectativa de representaci\u00f3n y esa especie de topograf\u00eda del detalle que aparece en la escena genera una tensi\u00f3n y tambi\u00e9n es como una l\u00ednea de reflexi\u00f3n de hasta qu\u00e9 punto es representaci\u00f3n o no, hay una tensi\u00f3n ah\u00ed, &nbsp;hay una tensi\u00f3n que es como generativa. Entonces se empieza a preguntar: es la gente que est\u00e1 comprometida con eso. Y de repente se revela: da igual que sea representativo o no, es irrelevante. Es quien se comprometi\u00f3 a venir, a estar delante de los dem\u00e1s\u2026 y es eso que adquiere luz, para m\u00ed. Y la tensi\u00f3n que se genera entre la expectaci\u00f3n de la representaci\u00f3n, de estas dos ciudades. Y de repente lo que te encuentras son las individualidades tambi\u00e9n. Estoy pensando en la cosa del Atlas, del mapa, y la representaci\u00f3n del territorio. Pienso en las peque\u00f1as monta\u00f1as, los caminos, los arroyos, que todo eso junto, dependiendo de que superficie mires, es representaci\u00f3n y a la vez no.<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Si, es verdad. Pero para nosotros Atlas es una palabra que tiene otros significados. Atlas es ese tit\u00e3 castigado, a sostener los cielos y la tierra con sus hombros. Y para nosotros el trabajo es un castigo para los humanos, y ahora c\u00f3mo est\u00e1, m\u00e1s a\u00fan. Y tambi\u00e9n es el nombre de este hueso que sostiene nuestra cabeza, y es muy importante para nosotros estos tres significados de Atlas, no solamente el mapa, tambi\u00e9n el castigo y nuestra cabeza que puede cambiar las cosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Aqu\u00ed, con Atlas Gasteiz, hubo dos momentos de n\u00fameros, que ah\u00ed si tal vez proyectamos algo de representaci\u00f3n. Porque un momento se habla sobre el n\u00famero de desempleados, y aqu\u00ed decidieron hablar tambi\u00e9n de la poblaci\u00f3n de inmigrantes de Vitoria. Hay, en ese momento, &nbsp;el intento tal vez del micro, del macro? S\u00ed, porque a m\u00ed me parece que es un poco ese el movimiento, colectivo, individuo, y como bailan ah\u00ed estos cambios, y no la idea de masas, eso es un deseo?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Tem muito a ver com a ideia inicial, da nossa vontade de falar do que estava a passar em Portugal, na Europa em geral, as pessoas juntas, as pessoas juntas na rua, a tentarem fazer alguma coisa, a estarem numa determinada hora, um grupo grande de pessoas, a dizerem \u2018n\u00e3o\u2019 a uma determinada coisa. Tem essa ideia, que vem de 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, falando mais em termos visuais, acho que depende muito dos teatros tamb\u00e9m. A arquitetura dos locais onde a performance \u00e9 apresentada, acho que muda tamb\u00e9m muito a forma como nos relacionamos com o objeto, se vemos mais a massa ou n\u00e3o. Aqui (no espa\u00e7o onde ocorreu Atlas Gasteiz), h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito \u00edntima. H\u00e1 teatros em que se tem uma rela\u00e7\u00e3o mais afastada, mais enquadrada, onde talvez se sinta mais a massa, a ideia de massa, que tamb\u00e9m nos interessa, mas n\u00f3s trabalhamos muito a individualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Inclusive vendo os v\u00eddeos de outras edi\u00e7\u00f5es do Atlas, me pareceu que essa caixa c\u00eanica tamb\u00e9m se torna um dispositivo super importante para o espet\u00e1culo. Me pareceu muito diferente ver em S\u00e3o Paulo (Brasil), que foi ao ar livre, e ver em teatros mais estruturados. Como voc\u00ea percebe esse espa\u00e7o criando dramaturgia ou interferindo na maneira como o publico v\u00ea essas pessoas?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: No caso dessa pe\u00e7a, acho que quanto mais o dispositivo for limpo, austero, mais espa\u00e7o vai dar para que se consiga ver todos os detalhes da pe\u00e7a. &nbsp;Quanto mais branco e negro, limpo todo o design \u00e0 volta for, mais os detalhes e as diferen\u00e7as se conseguem ver. No caso de S\u00e3o Paulo \u00e9 outra forma de nos relacionarmos com a peca porque n\u00e3o havia nada disso, era ao ar livre, os ru\u00eddos do exterior s\u00e3o muitos. Mas penso que pe\u00e7a ganha mais quanto mais limpo \u00e0 sua volta tudo for. Porque permite que essas pequenas coisas sejam vis\u00edveis. Sen\u00e3o \u00e9 ru\u00eddo sobre ru\u00eddo, o que tamb\u00e9m pode ser uma op\u00e7\u00e3o, o que tamb\u00e9m foi interessante em S\u00e3o Paulo, mas \u00e9 outra forma de pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Para eles (participantes) acho que tamb\u00e9m d\u00e1 um suporte maior. Houve j\u00e1 pessoas que criticaram essa ideia de fazer em teatros, que est\u00e1vamos a dar muito \u201cespet\u00e1culo\u201d. Porque essas pessoas que nos criticaram queriam ver tudo mais a cru. S\u00f3 que eu acho que os participantes que est\u00e3o aqui : e muitos nunca subiram num palco antes : &nbsp;ficam muito mais suportados quando est\u00e3o num teatro. Ou seja, prefiro pensar num dispositivo em que estejam suportados, do que essa ideia crua, vinda de algum teatro tamb\u00e9m contempor\u00e2neo, que \u00e9: \u2018tira tudo e agora vamos ver as pessoas\u2019. Mas eu penso que, aqui, dar esse suporte teatral e espetacular ajuda:os tamb\u00e9m como atores, como performers no palco, n\u00e3o os deixa cair, \u00e9 uma rede.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa: A sensa\u00e7\u00e3o que tenho \u00e9 que s\u00e3o pessoas que n\u00e3o t\u00eam muita experi\u00eancia em apresentar:se diante de outros. E o que ajuda \u00e9 estar de uma maneira mais tranquila E isso tamb\u00e9m ajuda ao encontro com o p\u00fablico. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que algo os est\u00e1 sustentando, a coisa j\u00e1 est\u00e1, eles podem habit\u00e1:la. E isso faz ver uma maneira de estar diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Sim, quando vi o v\u00eddeo de S\u00e3o Paulo, pensei em toda essa discuss\u00e3o sobre arte e vida. Pois me parece que quando o espet\u00e1culo sai desse espa\u00e7o do teatro, ele dilui muito seu marco art\u00edstico, porque ao final o que temos s\u00e3o presen\u00e7as muito cotidianas, que ganham outra conota\u00e7\u00e3o justamente pelo lugar onde est\u00e3o, por estarem num teatro. Ent\u00e3o me parece que o lugar importa para criar esse contraste. &nbsp;E nos workshops, at\u00e9 que ponto o coletivo influencia as atitudes do indiv\u00edduo? Digo, o fato de serem grupos mais cr\u00edticos, mais conservadores, isso acaba influenciando o indiv\u00edduo?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Sim, mas n\u00e3o sei se \u00e9 o grupo em si&#8230; \u00e9 um ping pong. Por vezes aparecem duas, tr\u00eas pessoas, que s\u00e3o muito fortes em termos de personalidades e que influenciam em determinadas quest\u00f5es. Eu n\u00e3o sei se \u00e9 influenciar, mas h\u00e1 quest\u00f5es que s\u00e3o levantadas atrav\u00e9s dessas pessoas. Por exemplo, quando chegamos a Hels\u00ednquia eles falaram que n\u00e3o queriam dizer a palavra \u201cincomodar\u201d. Porque para eles \u201cincomodar\u201d tinha uma conota\u00e7\u00e3o muito negativa. E eles dizem l\u00e1 que n\u00e3o incomodam ningu\u00e9m. Eles n\u00e3o querem incomodar ningu\u00e9m, n\u00e3o gostam de incomodar ningu\u00e9m, nem o vizinho do lado. E tivemos que explicar, primeiro, que n\u00e3o est\u00e3o sozinhos no mundo, que essa pe\u00e7a n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sobre eles em si, \u00e9 sobre uma situa\u00e7\u00e3o que o mundo est\u00e1 a passar e que para n\u00f3s nos interessa tamb\u00e9m pensar a quest\u00e3o do outro: o outro pode ser o nosso vizinho, mas o outro pode ser o vizinho do pa\u00eds ao lado. E que este incomodar \u00e9 para representar tamb\u00e9m essa vontade de mudan\u00e7a que muitas pessoas sentem e precisam. E que para n\u00f3s o incomodar n\u00e3o era apenas incomodar de uma forma negativa, mas era um incomodar de tirar do conforto, sair da nossa situa\u00e7\u00e3o de conforto para que as coisas mudem. E depois foi uma dessas mesmas pessoas que haviam influenciado o questionamento inicial que se p\u00f4s a estudar o significado da palavra e depois convenceu todo o grupo a dizer a frase. E a\u00ed tudo mudou novamente e todos aceitaram a palavra \u2018incomodar\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: Porque aqui em Gasteiz me deu uma impress\u00e3o que, no meio do processo, as pessoas que estavam fazendo frases neutras passaram a fazer frases cr\u00edticas. E a\u00ed fiquei pensando se era porque tinha uma grande parte das pessoas j\u00e1 fazendo frases cr\u00edticas e que teria sido uma onda, que veio assim contaminando&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: Sim, acho que foi, que eles muitas vezes se contaminam. E se a contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 excessiva, n\u00f3s, do lado de c\u00e1 da pe\u00e7a, temos que ajudar para que n\u00e3o sejam todos a dizerem frases longas ou frases cr\u00edticas. E tentar perceber o que realmente aquelas pessoas querem dizer, se foi s\u00f3 por contamina\u00e7\u00e3o, se realmente querem dizer aquilo, ou se pensam que n\u00f3s \u00e9 que queremos aquilo. Porque tamb\u00e9m tem isso tamb\u00e9m: o que eles acham que n\u00f3s queremos que eles fa\u00e7am. E isso acontece.<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: No caso de pessoas que experimentam frases diferentes no decorrer dos ensaios no workshop, voc\u00eas costumam chegar para orient\u00e1: los a dizer a frase que acham mais interessante, h\u00e1 esse tipo de dire\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o : Sim, falamos. E \u00e0s vezes pedimos para pessoas mudarem a frase, porque sai da estrutura e ou ent\u00e3o porque quer\u00edamos que o performer revelasse algo mais pessoal (&#8230;).<\/p>\n\n\n\n<p>Julia: E imagino que a defini\u00e7\u00e3o da ordem dos participantes em Atlas tamb\u00e9m seja parte da dramaturgia, dentre os 100, quem vir\u00e1 primeiro, quem aparece em seguida. Voc\u00eas partem de quais princ\u00edpios para criar essa organiza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o: A primeira pessoa, tentamos que seja algu\u00e9m que fa\u00e7a parte mundo do espet\u00e1culo, ou ator, ou atriz, nesse caso foi uma pianista. Como se fosse normal aquela pessoa estar ali. E depois seguimos a l\u00f3gica de colocar primeiro pessoas que digam apenas a sua profiss\u00e3o, com frases muito curtas, depois pessoas que falem mais, com frases mais longas. Depois tentamos estabelecer uma l\u00f3gica entre as frases, como no caso de Lisboa. L\u00e1, aparecia uma aluna da escola secund\u00e1ria que queria ser atriz, em seguida um ator que trabalha na H\u00e4agen:Dazs. Ou seja, uma quer ser atriz, mas na verdade o ator : o futuro dela : &nbsp;n\u00e3o vive assim t\u00e3o bem porque tem que trabalhar na H\u00e4agen:Dazs&#8230; Tentamos fazer esse tipo de dramaturgia dentro da pe\u00e7a, como ter aqui, em Vit\u00f3ria, a m\u00e3e de um preso pol\u00edtico e logo a seguir temos uma pessoa que fala a l\u00edngua daqui. Esse preso pol\u00edtico muito provavelmente certamente tem alguma liga\u00e7\u00e3o com o Pa\u00eds Basco. Ent\u00e3o, esse tipo de l\u00f3gica de constru\u00e7\u00e3o \u00e9 a que tentamos sempre fazer, para criar um outro leque para as frases que n\u00e3o seja s\u00f3 o individual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julia Guimar\u00e3es. 2015<\/p>\n","protected":false},"author":285,"featured_media":2818,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[499],"tags":[163],"class_list":["post-2825","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-textos-cat-de-fr-pt","tag-participacion"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/users\/285"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2825"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2825\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2826,"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2825\/revisions\/2826"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2818"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.uclm.es\/archivoartea\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}